 se vê, ao rés dos tel­ha­dos al­tos, sina lin­ho azul de al­moço em casa de gente ri­ca. O «Sô Fes­sô», doente, fal­tou à es­co­la. E da ven­da do Caboz (onde fi­ca a chave, pre­sa a um búzio), da ven­da do Caboz até à raiga­da da mu­ral­ha er­ma e abal­ada da va­ga for­mou-​se aque­la es­pé­cie de car­ga de cav­alar­ia da garo­ta­da em férias, de saco­las aper­tadas, bar­retes en­ter­ra­dos até às orel­has, e o pião na al­gibeira dos calções co­mo um grande bubão nu­ma vir­il­ha.

  -Sume-​te, cão! Vai-​te en­costar a quem te deve! Nã querem lá ver que o al­ma do di­abo me ia ati­ran­do õ chão?! 

  É o Cacória. Cachené ao pescoço, chine­lo de oure­lo no pé, bonez­in­ho de ve­lu­do, não há mar­ic­as maior ao redol des­ta il­ha. Tem a ven­da a En­tremuros. Lá fri­ta o peixe aos moleiros da Agual­va e cor­ta o quei­jo a quem quer. Mas quero cá saber! O que ele é é um grandessís­si­mo mar­ic­as e muitís­si­mo ca­paz de es­tra­gar o des­ti­no des­ta man­hã à ra­pazi­ada da es­co­la à sol­ta.

  Nem mais!...Viu a mal­ta do­brar o Casão do Sal; pôs aque­la mão gor­da e niquen­ta em pala so­bre os ol­hos (o pitos­ga!) e lá foi…lá foi, que eu bem vi, avis­ar o Sr. Zoz­imo, por causa do Venân­cio. .. talvez avis­ar meu pai, que tem me­do da min­ha bron­quite e não me tar­da no en­calço! 

  -Foge! Foge, Se­gun­da! An­da Tiazé, que eles vêm aí! 

  «Chinelàbum! ... Chinelàbum! ...

  Chinelàbum! ... Sim­iclarim!... »

  O po­bre do Por­to Judeu bem pode es­boçar o seu baila­do ton­to, na Casa do Peixe; torcer o pez­in­ho de val­sa e faz­er aque­la cara feia, de par­vo ou de már­tir, com que dá o pu­lo fi­nal a meio do ter­reiro ar­rematan­do a canti­ga. A cá­fi­la vai mais longe que o seu bor­dão de to­lo. A cá­fi­la já deixa no are­al as pe­gadas da fu­ga e do mis­tério. 

  Vão à ban­ha­da? Não, que o frio e o mar não con­vi­dam. Às gi­es­tas no­vas, à Ladeira Devas­sa? Não é o tem­po de­las. O cemitério, ao Vale Far­to, ain­da tem as de­spe­di­das-​de-​verão fres­cas do Dia de De­fun­tos. 

  Quan­do nós éramos vivos

  Comíamos destes fi­gos;

  Ago­ra que so­mos fi­na­dos

  Comem­os dos mais pas­sa­dos ...

  As­sim can­ta­va o Ti Matesin­ho a meu pai, aos seis anos, para o obri­gar a atrav­es­sar em fral­da os quar­tos de­ser­tos e a me­ter-​se na cam­in­ha ao pé dele. Os fi­na­dos, viz­in­hos do Ver­doiço ... As cam­pas de labrostes e marí­ti­mos, de sen­horões e de ped­intes flori­das de goivos e vi­ole­tas uma vez ca­da ano... Lá es­ta­va, en­tre elas, a car­go do Cabo do Mar, a sepul­tura es­trangeira: 

  AQUI JAZ JACQUES ROUDÉ E SEUS COM­PAN­HEIROS

  DE BOR­DO DO LU­GRE «ODETTE», Q DE­RAM À COS­TA

  D'ES­TA IL­HA EM JANEIRO DE 1907.

  P. N. A. M.

  -Não es­tá? -gri­ta uma voz, cá do cais, para um dos da pa­trul­ha de ex­plo­ração es­con­di­dos atrás do forte, es­piando os cal­haus do naufrá­gio. 

  Mas eles não po­dem falar. Além de ser longe, com­pen­etraram-​se da mis­são e do mis­tério pi­ra­ta. Por is­so só fazem de lá um sinal de braço e mão, que o ven­to, pade­jan­do a areia, equiv­oca e di­fi­cul­ta. Quer diz­er que o guar­da, nat­ural­mente, foi caçar para a ban­da do Zim­bral. Há lá pom­bos de rocha ala­pa­dos nas fur­nas da cra­ca. 

  Quan­do, se­guros da im­punidade, chegá­mos à car­caça do veleiro, ain­da fe­liz­mente não tin­ham tira­do o sino que mar­ca­va os quar­tos a bor­do. Zoz­imo de Sã Lazro pen­sara em ar­rematá-​lo para a er­mi­da de S. Sal­vador. Em­bo­ra sem ce­po nem ce­gonha, a sua fraldil­ha de bronze era to­da jeitosa, com a mar­ca de Brís­tol na bor­da, co­mo os boti­jões de grés da bot­ica da Mis­er­icór­dia. Es­ta­va-​se mes­mo a ver o efei