 vi­da. Não merecíamos o fe­ri­ado, o naufrá­gio, a sine­ta de bor­do, na­da! Antes ir às rãs, às poças do Paul, e à junça, ou en­vis­car os nos­sos sutis de cana nos cer­ra­dos ceifa­dos da Rua Al­ta.

  Sur­preen­de­mo-​nos uns aos out­ros nestes pen­sa­men­tos a me­do, sen­ta­dos em cír­cu­lo na cal­heta cheia de cal­hau ro­la­do, à beira do navio per­di­do. Venân­cio, chatea­do ou de­silu­di­do, descalçara-​se e per­cor­ria as cristas mais perigosas da rocha até aos vi­sos do Zim­bral. De­pois, en­ter­ra­do na água até às vir­il­has, de­sar­raigou de um pesqueiro meia dúzia de la­pas bravas e, mes­mo sem pão, chamou-​as à pá do bu­cho. Ele próprio, o grande almi­rante Big­or­ril­has (out­ras vezes, em seco, capitão Fan­dul­ha Al­strecó), para ali es­ta­va para­do, atoleima­do, in­erte ... Que faz­er? 

  Eu disse-​lhe não sei o quê, a ver se o es­per­ti­na­va. 

  -Vai ber ... da ... 

  Nis­to, as­so­ma uma cabeça à brecha grande do forte -uma cabeça civ­il, cor­rec­ta: um chapéu de co­co. Se­ria meu pai ou o de Venân­cio? Eu tin­ha o jus­to e sagra­do ter­ror da perseguição ao fil­ho pródi­go, e fiquei sem pin­ga de sangue. Mas a hes­itação foi breve. Aque­le co­co não po­dia ser... não era o de meu pai. Naque­le co­co de­via es­tar a per­fí­dia e a denún­cia do Cacória, o seu vis­cer­al ressen­ti­men­to con­tra a garo­ta­da da es­co­la; e o pai de Venân­cio fi­ca­va-​lhe mais à mão do que o meu. 

  Começou en­tão a caça­da ha­bit­ual do pai atrás do fil­ho. Venân­cio, in­ca­paz de re­spon­der tor­to, era in­ca­paz tam­bém de se deixar cer­car. À vista do au­tor dos seus dias, lança­do em sua perseguição por des­obe­diên­cia de fu­ga, nascia-​lhe na bo­ca um sor­riso amare­lo co­mo a morte, um sor­riso ter­rív­el que nos enchia de me­do e de es­pan­to. E Venân­cio gal­ga­va, adi­ante da ben­gala do pai, ruas, es­quinas e trav­es­sas, can­tos, pare­des e por­tais; mas deixar-​se agar­rar, ced­er ao gesto ali­ciante e com­inatório -«an­da cá!»  -is­so, por na­da deste mun­do! Naque­le sor­riso do tác­ito des­obe­di­ente trem­ia, co­mo uma flâ­mu­la, a nos­sa cor­agem so­pea­da. Naque­la ob­sti­nação re­via-​se o nos­so in­stin­to de liber­dade ofen­di­do por tan­ta es­pi­onagem. 

  Ven­do Venân­cio sumir-​se na crista dos pene­dos, e o pai, no atal­hin­ho da rocha, ca­da vez mais dana­do, perde­mos a cabeça, de­satá­mos aos vi­vas e às pal­mas. Tiazé, roxo de rir, to­ca­va o sino a re­bate. O Se­gun­da solta­va auli­dos de san­to-​e-​sen­ha. O pai de Venân­cio, que perdera a paciên­cia e o chapéu, acabou por perder a lin­ha. E só en­tão sen­ti­mos, naque­la co­barde ar­ru­aça, o tra­vo a cor­agem e o sangue da nos­sa pi­rataria. 

  I'M VERY WELL, THANK YOU!

  João Cachalote pas­sa as tardes sen­ta­do à janela da co­zin­ha, a es­paire­cer. Vê-​se dali a ven­da do Adrião e o mar. A ven­da do Adrião tem um foguete atrav­es­sa­do na por­ta, a servir de reclame, e, nas tardes de In­ver­no mais pux­adas de ven­to, meia por­ta fecha­da. É jus­ta­mente ness­es dias que as fil­has de João Cachalote o não deix­am sair e lhe sabe mais a janela. 

  -Vou ali num in­stante à ven­da do Adrião e já ven­ho ... 

  -Ah, sen­hor! Aco­mode-​se o pai prà i! Com um tem­po destes! ... 

  Quem fala as­sim a João Cachalote, mestre tran­cador de baleia con­heci­do des­de o Ban­co da Ter­ra No­va até às Il­has de Baixo, e ca­paz de dar uma pon­tu­ada de arpão atrás do ou­vi­do de um mosquito ou de pe­gar em meia fan­ga de sal a pul­so para dar com ela na cara de quem lhe diss­er que mente?! «Ah! grandes siri­gaitas!», pen­sa João Cachalote, que se ar­ras­ta até meio da co­zin­ha en­costa­do ao seu cacetinho de jacarandá 