com meio dente de marfim apli­ca­do às con­teiras, e já vai re­man­do out­ra vez para o la­do da janela, in­de­ciso en­tre teimar e sair mes­mo ou amas­sar-​se na cadeira ao pé do gato.

  Lá es­tá ele, o Sobe-​e-​dece, a aproveitar o bor­ral­ho do xale que o vel­ho largou na cadeira, e de bar­rigu­in­ha a pa­pe­jar co­mo o mo­tor das primeiras lan­chas que se atrever­am a quer­er des­ban­car re­mo e es­co­ta ... João Cachalote nave­ga com di­fi­cul­dade per­to das águas do gato e não tira os ol­hos dele. A serenidade do Sobe-​e-​dece acon­sel­ha-​lhe res­ig­nação. Enx­ota-​o primeiro co­mo ami­go; mas o gato bo­ce­ja e demo­ra-​se, e o vel­ho, lem­bran­do-​se de que não re­filou bas­tante com as fil­has, apli­ca um berro dos seus, dos anti­gos. O gato es­gueira-​se rente ao so­bra­do da co­zin­ha, e João Cachalote, de xale pe­los joel­hos, sen­ta-​se.

  As pe­que­nas têm razão: es­tá ven­to. Ca­da ra­bana­da na rua, que é o poder de Deus! Titri­tite…Uma nu­vem de areús­cos vem ex­per­imen­tar a vidraça. E que grandes sal­seiradas no forte, quan­do os va­gal­hões de ar­co for­ma­do longe já não po­dem mais e reben­tam! Ali sen­tad­in­ho de­baixo de cober­to enx­uto es­tá-​se muito mel­hor. De mais a mais, o céu prom­ete água, to­do su­jo e mex­ido por rodil­hões de nu­vens que João Cachalote bem con­hece. À por­ta da ven­da do Adrião per­gun­tam-​lhe sem­pre:

  -Tem­po sig­uro, sô João? 

  -O ven­to stá descain­do a és-​nordeste ...Mau sinal! Temos tra­buzana. A nã ser que aque­la nes­ga ali a barlaven­to abra mais ... 

  Ho­je é um dia dess­es: triste, em­baça­do, maciço. (E João Cachalote faz pin­char a ben­gal­in­ha de jacarandá no soal­ho.) Fez aque­la cara feia que parece traz­er na al­gibeira co­mo uma más­cara su­ple­men­tar, aque­le en­fa­do de bigode pen­di­do, amare­la­do nas guias pe­lo queimor do cachim­bo, com que fala às vezes à gente; -mas no fun­do sente-​se bem dis­pos­to e es­tá go­stan­do. O mar lá es­tá com a carneira­da to­da, es­verdinhado, e de quan­do em quan­do aque­le seu ur­ro da reben­tação, seco e cer­to. É as­sim mes­mo que ele gos­ta. En­cos­ta-​se à cadeira e afir­ma-​se no de­brum do forte (para ver, es­tá por ali. .. ): catatau! -out­ra va­ga es­toira­da. A ale­gria do vel­ho é tão ve­la­da e taman­ha, que, ape­sar de se lhe não ou­vir uma palavra, parece que aplaude: -Chega-​lhe! 

  Mas da ven­da do Adrião vem um bafor de ajun­ta­men­to hu­mano, uma in­sin­uação de jo­gati­na e de cachaça. É um quase na­da. É ago­ra es­ta vel­ha que dei­ta o xale pela cabeça e sai de lá com meia bar­ra de sabão em­brul­ha­da e o can­til de vidro en­for­ca­do no de­do mend­in­ho, com a pin­ga para o homem. É de­pois o Adrião per­na de pau que chega à por­ta, cus­pilha para o meio do cam­in­ho e se mete lo­go para den­tro. João Cachalote mexe-​se na cadeira, es­boça uma no­va in­vesti­da. Não, que elas ral­ham. «Elas» são três: Tere­sa, Joaquina e Rosa. A mãe, tam­bém Rosa; mas a mãe já lá vai, in­fe­liz­mente. Is­so não é coisa que dê por nome de vi­vo nem se tra­ga à baila de mis­tu­ra com aque­las três cria­tur­in­has que o não deix­am pôr o pé em ramo verde: «E, pa­pá, o cherne faz-​lhe mal!. .. » «E ol­he, pa­pá, leve o capote, que se con­sti­pa!» «E, pa­pá, vire a go­la do casaco, ol­he a gar­gan­ta!» O vel­ho em­per­ti­ga-​se e, sara­cote­an­do-​se na cadeira, imi­ta as fil­has uma a uma; ar­regala os ol­hos, de es­con­so, a ver se al­gu­ma aparece; quase que berra, em des­for­ra de tan­ta aper­reação: «Vão para casa do di­abo, com tan­ta niquice!» 

  Joaquina en­tra, pé ante pé, espre­ita um pouco, e per­gun­ta: 

  -O pa­pá disse al­gu­ma coisa? Es­tá com mais dores n