a per­na? 

  O vel­ho faz meia ro­tação à es­quer­da, bu­fa fu­rioso -e mais na­da. 

  Joaquina, «a min­ha do meio», é quem to­do lo man­da em casa. Tende, coze, faz bar­rela, to­das as se­manas pas­sa uma boneca de óleo de amên­doa doce nos tare­cos. Do­ral­ice, um es­freg­ul­hin­ho de treze anos, ne­ta da viz­in­ha Cacória e afil­ha­da de Rosa, «a min­ha mais moça» ,  faz os man­daletes e já tem as mes­mas peguil­has das amas. Joaquina atreveu-​se a en­car­regar o «fe­dor» de quitar João Cachalote, quan­do, à ho­ra da dei­ta, se en­cam­in­ha para o quar­to, de pôr a ben­gala de castão de marfim ao can­to do es­car­rador. Há-​de ser por força de­trás da por­ta do quar­to de jan­tar, com os três guar­da-​sóis das fil­has!

  O José da Praça, que en­tra na ven­da  do Adrião. .. Deu por ele cá na vidraça; riu-​se; fez um sinal de cabeça, co­mo quem diz: 

  -En­tão ho­je não vem um bo­ca­do até à ven­da?...

  Ele fez-​lhe de cá um gesto va­go, um passe de mão dos vidros para as nu­vens, co­mo quem re­sponde: 

  -Obri­ga­do; mas não me apetece sair, com um tem­po destes ... 

  O que é, é que não pode ... Porque não há-​de pen­sar, ao menos, com fran­queza? Não o deix­am! «Elas» ral­ham. E João Cachalote ou­ve a risa­da es­carn­in­ha do José da Praça, o seu maior ami­go, ago­ra que es­tão am­bos uns caque­iros. 

  Pas­sam ho­ras e ho­ras na ven­da do Adrião a falar de forças e de «a van­ta­gens». Com o tem­po as­sim co­mo ho­je, a con­ver­sa pede histórias do mar, di­fi­cul­dades de trip­ulações a con­tas com navios de­sar­vo­ra­dos: um in­glês chama­do Jack que lev­ou o João Cachalote à rua das mul­heres da vi­da, em São João da Ter­ra No­va, e duas sen­taram-​se-​lhe uma em ca­da joel­ho a puxar-​lhe o bigode e a can­tar. José da Praça ou­ve-​o, bam­bo, com as suas manápu­las de car­ni­ceiro en­costadas aos rins. 

  Ho­je, que oiça quem quis­er e vá para o di­abo que o car­regue mais a sua ri­ca liber­dade! Vive soz­in­ho com um fil­ho solteiro, o Quin­cas, na Praça. É por is­so que lhe chamam o José da Praça, onde tem a casa e o açougue. Mas es­teve mais de vinte anos na Bahia, es­ta­bele­ci­do no Caque­nde, e jun­tou uns vin­téns bons. Trouxe de lá aque­le fil­ho meio amu­lata­do e baixote, com aque­le an­dar de capoeira e um sinalz­in­ho na cara, uma es­pé­cie de uva pas­sa­da. As moças mor­rem por ele. Por onde será que lhe pegam? João Cachalote não sabe, nem se im­por­ta. O que sabe é que o Quin­cas lhe ron­da­va a por­ta, gin­gan­do, o ol­ho de boi lan­guin­hen­to por cima da uva pas­sa­da. João Cachalote -a pau... De in­cul­ca em in­cul­ca, de­sco­briu Rosa afoguea­da, a me­ter-​se para den­tro da janela. Não pon­has mais na car­ta...

  -Seu Quin­cas, sou muito ami­go de seu pai, mas se você me não varre a tes­ta­da que­bro-​lhe o focin­ho! 

  Quin­cas mediu o vel­ho: João Cachalote mar­cha­va en­gan­cha­do, es­co­ran­do-​se pas­so a pas­so àquele seu cacetinho de jacarandá en­cas­toa­do de marfim. A pele, de en­car­quil­ha­da, tin­ha pé-​de-​gal­in­ha nos ol­hos. Mas a lin­ha da tes­ta ao queixo -«que­bro-​lhe o focin­ho!» era sinal de que­brar mes­mo. Quin­cas lem­brou-​se do pai; lem­brou-​se da sua queri­da Joana da Trav­es­sa do Ourives; lem­brou-​se dos os­sos in­teiros e foi de­scolan­do, grun­hin­do ... Rosa ema­gre­ceu muito, mas foi pouco a pouco es­que­cen­do a uva pas­sa­da do Quin­cas. Pois! As­sim é que é! 

  João Cachalote lem­bra-​se destas coisas por al­to, por den­tro da vidraça da co­zin­ha, em frente da ven­da do Adrião. Vê-​se lá longe o forte, com as peças servin­do de frades, de cu­la­tra para cima. En­ter­radas no bar­ro cober­to de areia e bál­samo, cheias de cra­ca e de fer­r