 a por­ta para o cam­in­ho, o mar en­via-​me um pique mais doce e bravio. E de­sis­to de com­para­ções sim­ples­mente id­io­tas. 

  Is­to deve ser uma pon­tin­ha de febre enx­er­ta­da num cer­to es­go­ta­men­to dos meus trin­ta anos ex­ces­sivos, e já me lem­brei que, toman­do brome­tos, talvez es­ta es­pé­cie de mul­her mar­in­ha se safe, co­mo se eu fos­se um cor­po aber­to. O Prof. Sousa Júnior, aqui re­ti­ra­do há anos, e que além de médi­co em­inente é um coração de ouro e grande cavaque­ador, falou-​me de sí­fil­is hered­itária e deu-​me calome­lanos. Mel­hor­ei um pouco, mas não ... Is­to não vai com dro­gas. As­se­guro que es­tou casa­do com uma mul­her de sal e que vai dar-​se aqui uma coisa tremen­da que fará gemer os pre­los! 

  Tra­ta-​se, pe­lo menos, de uma ilusão sin­gu­lar. Es­ta noite son­hei que a Solidão deix­ava de ter aque­le cor­po quiméri­co e feito de lin­has de lim­ite, para tomar as for­mas aprox­imadas de Nanette. E acordei a chorar co­mo uma cri­ança: 

  -Min­ha Mul­her a Solidão é Nanette! 

  E, ain­da, num ha­lo de delírio: 

  -Nanette é Min­ha Mul­her a Solidão! 

  Co­mo foi? Não sei bem. Parece que eu deixara Nanette num país es­quisi­to e in­abor­dáv­el: o ar­quipéla­go dos Pi­ca­paus. O nome era de­vi­do à con­fig­uração dos es­tran­hos habi­tantes dessas il­has: tipos fer­ozes, gar­galu­dos, provi­dos de nar­igueiras que fare­javam tu­do de al­to a baixo. 

  Nanette, que eu levara à fal­sa fé, sob pre­tex­to de uma re­ga­ta, não que­ria de­sem­bar­car no úni­co an­co­radoiro da Pi­ca­pau Grande, cor­ta­do en­tre falésias mosqueadas de líquenes cor de fo­go. Eu, verde e per­fí­dia, disse-​lhe: 

  -É só por um dia, meu amor! E fi­cas muitís­si­mo bem en­tregue ... Vá, min­ha fil­ha! Pon­ha aqui o seu pez­in­ho no primeiro de­grau do cais ... 

  O chefe dos Pi­ca­paus dis­sera-​me ao ou­vi­do que no ar­quipéla­go se de­sen­ha­va uma tendên­cia à mu­tação nos car­ac­teres antropológi­cos da es­cas­sa cidada­nia. Os nar­izes pen­cu­dos, de al­to faro, tin­ham provo­ca­do afi­nal uma epi­demia ter­rív­el que diz­ima­va em mas­sa as tabas: a ri­nite pi­ca­paual. 

  Além dis­so, um ven­to mis­te­rioso, so­pra­do dos seios do Pací­fi­co (o ar­quipéla­go dos Pi­ca­paus es­tá mais ou menos na lat­itude do gol­fo da Cal­ifór­nia, en­tre 25° e 30° de lat­itude norte), apan­hara a pop­ulação de sur­pre­sa nas suas tare­fas ha­bit­uais -a picagem do pau de ro­lo -e cor­tara cerce os pescoços de mil e quin­hen­tos cidadãos. Se eu quisesse, me­di­ante um cheque de cem mil dólares, ele, führer nat­ural do ar­quipéla­go, re­ce­be­ria Nanette em de­pósi­to du­rante dois ou três anos e fá-​la-​ia con­ce­ber de um ou dois pi­ca­paus mais de­centes. 

  An­ima­do pe­lo se­cre­to de­se­jo de en­rique­cer e en­co­brindo a própria vileza com reser­vas men­tais de palin­genésia, fechei a transacção. Fo­mos ao ban­co de meu pri­mo James Derosa e re­ce­bi metade do es­tip­ula­do. Preferi o es­ter­li­no. A out­ra metade ser-​me-​ia en­tregue quan­do me resti­tuíssem Nanette com um quin­to dos pi­ca­pauz­in­hos hu­man­iza­dos que ela hou­vesse, a bor­do de um navio do con­tra­ban­do do ál­cool trip­ula­do por maru­jos da con­fi­ança de Al Capone. 

  Con­segui en­fim vencer as úl­ti­mas re­sistên­cias de Nanette. Ela era ro­manesca, de uma docil­idade de cadelin­ha, e con­fi­ava em mim co­mo as pom­bas palon­sas que, na Praça de São Mar­cos, em Veneza e antes de Tito es­tar às por­tas de Tri­este, vin­ham com­er mil­ho amer­icano dis­pos­to grão a grão nos meus om­bros enchu­maça­dos, sob a for­ma pa­trióti­ca por que se agru­pam as es­tre­las na ban­deira dos Es­ta­dos Unidos. 

 