Title: O Pescador Urashima
Author: Venceslau de Moraes
CreationDate: Thu Jul 23 12:31:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Feb 25 14:20:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  O Pescador Urashima

  Vences­lau de Moraes

  A Al­for­reca, Ninguyo e O Pescador Urashima foram ex­traí­dos do livro Pais­agens da Chi­na e do Japão.

  © 1997, Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8396-28-7

  Lis­boa, Dezem­bro de 1997

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  O PESCADOR

  URASHIMA

  A AL­FOR­RECA

  A Hen­rique Car­val­hosa 

  Fala a len­da japone­sa. 

  Antiga­mente – e quem sabe se ain­da ho­je! - no seio do oceano era o reino faus­tu­oso dos dragões. Por lon­gos anos, o sen­hor deste reino, o dragão re­al, viveu celi­batário, nu­ma ex­istên­cia de­scui­dos a; e sabem só os deuses, e não nós, quan­tas noites de dis­si­pação, em com­pan­hia de tar­taru­gas e lagostas ligeiras de cos­tumes, que lhe can­tavam trovas ao som do sham­icen e lhe iam servin­do saqué em ri­cas taças, quan­tas noites ele pas­sou em trav­es­sas in­tim­idades amorosas!...

  Ver­dores, que pas­sam breve. Um be­lo dia, re­solveu casar-​se, o bom sober­ano. A noi­va es­col­hi­da foi uma jovem dragoazi­ta, dezas­seis anos ape­nas, adoráv­el, digna pe­los seus mil en­can­tos de ser a con­sorte fe­liz de tal sen­hor. Ex­plên­di­das foram as bo­das por es­sa ocasião, se­gun­do con­sta: sem já falar na corte ín­ti­ma, to­da a bicharia aquáti­ca, peix­es, mariscos, mo­lus­cos, to­dos vier­am pro­ces­sion­al­mente, em car­dumes, em be­los qui­monos de sedas en­car­nadas, ofer­ecer seus re­speitos e pre­sentes; e foram, du­rante lon­gos dias, es­tu­pen­dos re­gabofes, em danças, em músi­cas, em ban­quetes... 

  Mas nem os dragões es­capam às duras provações da ex­istên­cia! Ain­da bem um mês se não pas­sara, quan­do a au­gus­ta sober­ana caiu doente; e tais cuida­dos in­spirou des­de lo­go o seu es­ta­do, que era uma lás­ti­ma ob­ser­var as trom­bas com­pungi­das dos fi­dal­gos, co­men­tan­do baix­in­ho, em lamen­tações do seu ofí­cio, o triste ca­so. Re­uni­ram-​se os doutores em con­fer­ên­cia; falaram muito, dis­cu­ti­ram muito, sem chegarem a acor­do, co­mo sem­pre sucede; con­sul­taram-​se abal­iza­dos al­far­rábios de ter­apêu­ti­ca; as bar­batanas in­can­sáveis ra­bis­caram um mil­hão de re­ceitas mi­la­grosas e to­das as ti­sanas se servi­ram. Bal­da­do in­ten­to; a sober­ana ex­tin­guia-​se; e afi­nal os focin­hos dos sábios, num tre­jeito de piedade e de­sen­gano, tiver­am de ser fran­cos, de declarar que a ciên­cia -já naque­la época se enchia a bo­ca com a ciên­cia -que a ciên­cia na­da mais po­dia faz­er, e que um an­gus­tioso des­fe­cho era de es­per­ar-​se. 

  Do seu leito de en­fer­ma, de en­tre os fu­ton, as fo­fas colchas de ce­tim, agi­ta as tré­mu­las pat­in­has a rain­ha; chama jun­to de si o es­poso, e diz-​lhe es­tas palavras ao ou­vi­do: 

  -Uma só coisa me sal­vará: ar­ran­quem o fí­ga­do a um maca­co vi­vo, e con­sin­tam que o de­vore; re­cu­per­arei a saúde... -O rei não pôde reprim­ir um gesto de sur­pre­sa, quase de en­fa­do, e to­do se lhe er­içou o bigode façan­hu­do: 

  -Um fí­ga­do de maca­co! es­tás lou­ca, min­ha queri­da!...-Ela pronta­mente retru­cou: 

  -Lou­ca, porquê? Vos­sa ma­jes­tade es­quece por­ven­tu­ra, que nós, o grande po­vo dos dragões, no mar vive­mos sem­pre, en­quan­to que os maca­cos, muito longe daqui, vivem na ter­ra, nos bosques, en­tre as ár­vores, nu­trindo-​se de fru­tos... No fí­ga­do do mono al­gu­ma coisa virá que par­ticipe desse mun­do, tão di­ver­so, tão out­ro; e es­sa partícu­la es­tran­ha, sen­hor, me sal­varia!...-E a rain­ha, a quem as lá­