gri­mas aco­dem, prossegue num tom repreen­si­vo e las­ti­moso: -Uma in­significân­cia, um na­da, pe­di, e esse na­da vos­sa ma­jes­tade me re­cusa. Jul­ga­va mere­cer-​lhe mais afec­tos. Dis­pa-​me destas pom­pas de sober­ana, não as quero; dê a coroa a out­ra es­posa, mais digna, mais for­mosa; con­sin­ta que vol­va ao nin­ho car­in­hoso de meus pais…-A voz su­fo­ca-​se em soluços, não pode mais pro­ferir uma só queixa…

  O rei dos dragões não que­ria pas­sar, en­tre damas, por um dragão cru­el; por de­mais con­hecia ele os capri­chos pueris do sexo frágil, mas per­doa­va-​os com­pla­cen­te­mente, por sis­tema; e so­bre­tu­do ado­ra­va a es­posa, cu­jas lá­gri­mas de­se­jaria poupar a to­do o transe. Sat­is­faça-​se pois o capri­cho da rain­ha. Man­dou chamar a sua es­cra­va mais fiel e ded­ica­da, a al­for­reca, e disse-​lhe o seguinte: 

  -Vou dar-​te uma es­pin­hosa tare­fa, min­ha vel­ha, mas con­fio na tua ded­icação nun­ca men­ti­da; pre­ciso que em­preen­das uma lon­ga vi­agem, que nades até jun­to da ter­ra, e ali covenças um maca­co a vir con­ti­go a estes meus reinos; fala-​lhe, para o re­solveres, da mág­ica beleza destes sí­tios, tão difer­entes dos seus, e da gen­tileza destes meus súb­di­tos fe­lizes; mas o que eu real­mente quero neste ca­so, é que se ar­ranque o fí­ga­do das en­tran­has de tal mono, e se sir­va co­mo medica­men­to à tua jovem ama, que, co­mo de­cer­to sabes, se acha em peri­go de vi­da, a des­di­tosa. 

  Lá vai, oceano fo­ra, ven­to em popa, a al­for­reca, emis­sária obe­di­ente e ufanosa do en­car­go. Por aque­les tem­pos, a al­for­reca, co­mo qual­quer bi­cho das águas, era um an­imal gra­cioso, de con­tornos es­bel­tos, com cabecin­ha, com ol­hin­hos, com mãoz­in­has, e com a com­pe­tente cau­da titi­lante; e fi­ca­va-​lhe tão bem o fa­to de maru­jo!... Lá vai, oceano fo­ra, ol­har sereno e cog­ita­dor, rompen­do a vig­orosas braçadas a on­da fria. Não tar­da muito a abeirar-​se do país onde vivem os maca­cos; por fe­li­ci­dade, um além es­tá, um lin­do mono, saltan­do de ramo em ramo, de­pen­duran­do-​se das ár­vores que en­raizam nos pene­dos e se de­bruçam so­bre o mar. 

  -Bons-​dias, sen­hor maca­co. Eu ven­ho aqui ex­pres­sa­mente para falar-​lhe de um país longín­quo, muito mais be­lo do que o seu; é ele situ­ado além das on­das e con­heci­do pe­lo reino dos dragões; ali, não há es­tações, é eter­na a amenidade do cli­ma; ali, nas co­pas das ár­vores re­pol­hu­das, con­stan­te­mente aman­hecem ave­lu­da­dos fru­tos saborosos, é col­hê-​los, não há out­ra tare­fa; para cú­mu­lo do con­for­to, es­sas criat­uras mal­faze­jas, home­ns chama­dos, não pisam tais par­agens. Se lhe agra­da vir comi­go, eu serei o seu guia; não tem mais que faz­er do que saltar desse tron­co para cima do meu lom­bo... -O maca­co achou gra­cioso is­so de ir ver novos país­es. Vá lá mais es­ta ex­trav­agân­cia à con­ta da boémia simi­esca. 

  -Ao largo, ami­ga! -E lá foram os dois; porém, a meia trav­es­sia, pen­sou tar­dia­mente o mono na temeri­dade do seu feito, ex­pon­do-​se as­sim ao ar­bítrio de um es­trangeiro, e aban­do­nan­do a sua pá­tria. De­cid­iu-​se en­fim a per­gun­tar: -Que pen­sa você que vão faz­er de mim na sua ter­ra? -A al­for­reca de­ve­ria ago­ra ser disc­re­ta, en­capotar as re­spostas em eva­si­vas; mas oiçam lá o que ela deu em tro­co: 

  -Eu lhe di­go: meu amo, rei dos dragões, or­de­na ao sen­hor maca­co que ar­ranque o próprio fí­ga­do, o qual vai ser servi­do à nos­sa sober­ana, ho­je en­fer­ma, e salvá-​la da morte. -En­tão o mono, guardan­do para si os co­men­tários que o ca­so sug­eria, disse cortes­mente, que era para ele uma al­ta hon­ra e um in­es­per­