ado praz­er, o as­sim tornar-​se útil a sua ma­jes­tade; acres­cen­tou, porém, que ago­ra se lem­bra­va de ter deix­ado o fí­ga­do de­pen­dura­do num tron­co de ár­vore, aque­le mes­mo cas­tan­heiro donde saltara para as costas da al­for­reca. Con­tin­uou dis­cur­san­do em lin­guagem flu­ente, de orador eméri­to, de­scen­do a ex­planações min­uciosas; e ex­pli­cou co­mo o fí­ga­do era uma coisa bas­tante pe­sa­da, em­baraçosa, um quase al­for­je de pere­gri­no, um em­pecil­ho que ele cos­tu­ma­va pôr de parte, du­rante o dia, para se en­tre­gar mais à von­tade aos seus ex­er­cí­cios de ac­ro­ba­ta; hábitos de família, já seu avô fazia o mes­mo; e con­cluiu, que o mel­hor que tin­ham a faz­er neste mo­men­to, era voltarem para trás, e na ár­vore en­con­trari­am o fí­ga­do em questão. 

  Não pôs ob­jecções a nadado­ra. Voltan­do à ter­ra, o maca­co saltou ao cas­tan­heiro com uma ligeireza nun­ca vista, nem mes­mo en­tre maca­cos, acom­pan­han­do o pu­lo de uma ale­gre care­ta e de um gesto que traduzia o jú­bi­lo do bestun­to, coisa que pas­sou es­tran­ha à al­for­reca. Procurou en­tre as fol­has o seu fí­ga­do. Não o en­con­trou. Ex­pli­cou en­tão do al­to, à al­for­reca, que provavel­mente al­gum com­pan­heiro o levara para longe, o que o obri­ga­va a mais de­mor­adas pesquisas pe­lo bosque; no en­tre­tan­to que fos­se ela con­tar o ca­so ao seu sen­hor, que de­via es­tar an­sioso por vê-​la chegar antes da noite. 

  As­sim pro­cedeu o bi­cho. 

  El-​rei, que a es­per­ava, e que a es­cutou, en­raive­ci­do por taman­ha in­genuidade -para não lhe chamar coisa mais feia –, man­dou lo­go vir da mal­adia um ban­do dos seus mais sober­bos samu­rais, e or­de­nou-​lh­es que mal­has­sem no bi­cho à pan­ca­da, até cansarem. O cas­ti­go foi cumpri­do, e com esse vig­or de braços de vilões, que mi­ram aos aplau­sos do monar­ca. É es­ta a razão porque a al­for­reca, ho­je em dia, não tem per­nas, nem cabeça, nem cau­da nem bar­batanas; tan­ta pan­ca­da lev­ou, que fi­cou re­duzi­da a es­ta mis­éria, mas­sa in­forme, um far­rapo, um pedaço de gelati­na, boian­do de­spre­sivel­mente à mer­cê do tur­bil­hão das va­gas.

  Com re­speito à sober­ana, re­con­sideran­do no dis­parate do seu capri­cho, con­cluiu que o mel­hor que tin­ha a faz­er era er­guer-​se da ca­ma e pôr-​se boa; e as­sim fez, com grande pas­mo dos doutores. 

  A história da al­for­reca es­tá con­ta­da, na sua sim­pli­ci­dade co­movente. É verídi­ca es­ta história, co­mo tu­do que o po­vo re­la­ta de memória; creia nela quem crê. Fi­ca-​se já saben­do no en­tre­tan­to –, e é is­to de um proveitoso en­si­na­men­to –, que os Japone­ses tão prodiga­mente propen­sos ao perdão para tan­tos pecadil­hos de al­ma e de cos­tumes, cas­tigam os pate­tas. 

  Di­ga-​se fran­ca­mente: es­ta des­graça da al­for­reca, no país do Sol nascente, era in­evitáv­el; e o ca­so pres­ta-​se a in­ter­es­santes co­men­tários, que eu vou re­sumir em pou­cas lin­has. Os Japone­ses -po­vo de artis­tas são os grandes amorosos da cri­ação, da for­ma, da vi­da; ninguém co­mo eles con­hece os seg­re­dos da ave, do in­sec­to, do rép­til, do peixe, dos mo­lus­cos, do verme, de to­dos os seres da ter­ra; a an­imal­idade gra­ciosa dess­es seres, es­tu­da­da com per­cepções es­pe­ci­ais, que nos es­capam, con­sti­tui o tema mil e mil vezes vari­ado, dos seus pri­mores de arte. Mas esse mon­stro, es­sa dis­formi­dade, es­sa al­for­reca que se ap­re­sen­ta co­mo úni­ca ex­cepção da lei ger­al da gen­tileza da vi­da, e parece re­sumir em si o en­fa­do in­teiro de um dia de mau hu­mor do Om­nipo­tente, de­via ter deix­ado im­pressões tristes nos primeiros japone­ses que a avis­taram