; e foi pre­ciso ar­ran­jar lo­go uma ex­pli­cação condigna do fenó­meno, e é a que fi­cou de­scri­ta nes­tas lin­has. 

  É ain­da in­ter­es­sante recor­dar de pas­sagem a aprox­imação, pela des­di­ta, da al­for­reca japone­sa com a medusa mi­tológ­ica da Gré­cia, não mere­cen­do es­ta mel­hor trata­men­to dos deuses olímpi­cos. Cu­riosa co­in­cidên­cia! 

  NINGUYO

  Mukashi, mukashi (nos vel­hos tem­pos, nos vel­hos tem­pos, co­mo diri­am estes bons japone­ses, e con­forme reza a len­da, in­ter­pre­ta­da pe­lo Ni­hon no Mukashibanashi (Anti­gas Leg­en­das do Japão), viveu um homem, um sim­ples, de ín­dole bon­dosa, de quem se pode­ria diz­er que pas­sara a mo­ci­dade em de­se­jos de matrimónio; mas co­mo de­se­jos e re­al­iza­ção de­les são duas coisas mui difer­entes, atingiu o po­bre a meia idade sem ter lev­ado a efeito es­sa fir­ma... -com­er­cial não é talvez o ter­mo próprio -em to­do o ca­so es­sa fir­ma a dois par­ceiros, que par­til­ham en­tre si, da vi­da, ale­grias e tris­tezas. 

  As ale­grias dele con­sis­ti­am prin­ci­pal­mente em en­tre­gar-​se à pesca, pesca à lin­ha du­rante os lon­gos ócios; tris­tezas, sen­tia-​as so­bre­tu­do, mais mor­dentes, ao recol­her à noite a casa, der­rea­do, cam­bale­an­do de sono e de fadi­ga, sem en­con­trar uma al­ma com­pan­heira que lhe sor­risse à por­ta, e em saudações o con­vi­dasse a en­trar; nem mãos pres­ti­mosas que lhe tomassem o peixe e o aman­has­sem, e fos­sem de­pois levá-​lo ao fo­go do bra­seiro. Em to­da a parte, e es­pe­cial­mente no Japão, estes sen­ti­men­tos ín­ti­mos da al­ma -jú­bi­los de pescador à lin­ha e de­salen­tos de solteiro -são bem jus­ti­ficáveis. Com efeito, para um tem­per­amen­to vagabun­do e im­pres­sionáv­el aos en­levos da pais­agem, co­mo se dá com to­do o Japonês, quan­tos en­can­tos não vão pro­por­cio­nan­do a lin­ha e o an­zol, in­duzin­do-​nos sem es­forço a lon­gos pas­seios de boémio, pene­dos e pra­ias fo­ra, con­tor­nan­do mar­gens ziguezagueantes de ribeiras e en­seadas, em face dos cenários serenos, to­dos verde, fres­curas, es­pel­hos de águas e mur­múrios... e co­mo as ho­ras voam, aco­co­ra­do o cor­po so­bre a rocha, a mão ora afei­ta, ora pren­den­do o is­co, ora de­mor­an­do-​se em co­movente es­pec­ta­ti­va, ora col­hen­do o peixe a es­tre­buchar; e o es­píri­to voan­do, co­mo as ho­ras, al­heio ao ofí­cio, deli­cian­do-​se em son­hos, vi­ajan­do no reino das quimeras... Mas à noite, após um dia in­teiro de labu­ta, é que o cor­po se dói e fal­ham os joel­hos; e deve en­tão saber tão bem chegar a gente ao lar de es­teiras e pa­pel, e vir à en­tra­da ajoel­har-​se em corte­sias a figu­ra gen­til de uma es­pos­in­ha fres­ca, en­volvi­da em sedas e per­fumes, com as mãoz­itas rosadas em posição sub­mis­sa, as mãoz­itas tão hábeis em corarem nas brasas as tru­tas saborosas... 

  Ora, um be­lo dia, o nos­so homem, de quem a tradição não to­mou con­ta do nome, acha­va-​se pes­can­do se­gun­do o seu cos­tume, bam­bu em pun­ho, e med­itan­do ao mes­mo tem­po so­bre o seu de­scon­so­lo e des­ola­da sorte, quan­do... zás! um grande safanão na lin­ha lhe fez lo­go imag­inar que al­gu­ma coisa fo­ra do co­mum have­ria de col­her. Por pouco se lhe não vão, lin­ha e an­zol, e peixe ao mes­mo tem­po; en­tão com muitas man­has que são próprias da arte, pôs-​se a cansar a pre­sa, já alon­gan­do o braço e deixan­do-​a de­bater-​se a seu capri­cho, já aprovei­tan­do o re­pouso para trazê-​la à pra­ia; até que en­fim, aza­do o in­stante, pux­ou com força, e veio cair-​lhe o peixe aos pés.

  O peixe? o peixão!...Era uma Ninguyo, uma sereia; nem mais nem menos; face de mul­her, de uma rara for­mo­sura, e um enor