me cor­po ven­tru­do, alon­ga­do, es­camoso, ag­itan­do bar­batanas e ter­mi­nan­do em am­plo rabo, que en­tão de­ses­per­ada­mente es­treme­cia. Face de mul­her de uma rara for­mo­sura, disse-​o eu, e não me engano: esse con­torno doce de oval, de ur­izane­gao, de pe­vide de melão, tão queri­do em es­téti­ca japone­sa; os bas­tos ca­be­los ne­gros flu­tuan­do em co­ma; a tez de jaspe; os ol­hin­hos de ve­lu­do; a bo­quin­ha es­car­late. Mas chora­va, a sereia, em con­tracções de angús­tia; chora­va cer­ta­mente pela dor, pois lhe ras­ga­va a carne o traiçoeiro an­zol; e ain­da mais talvez pela ver­gonha de ver-​se as­sim ar­rebata­da do seu meio ha­bit­ual, ex­piando um peca­do de lam­barice, in­de­fe­sa, nua di­ante de um es­trangeiro!... 

  O pescador porém era de uma ín­dole bon­dosa, co­mo fi­cou no­ta­do um pouco atrás; e vai-​se ago­ra ver co­mo o provou. Com­preende-​se, é claro, o seu primeiro es­pan­to: o homem pun­ha as mãos so­bre a cabeça, a es­bugal­har os ol­hos, e gague­ja­va não sei que ex­cla­mações... Pud­era não! Acal­ma­do, sacou cautelosa­mente o an­zol da bela face em sangue; e toman­do nas mãos o es­tran­ho ser, pôs-​se a cis­mar madu­ra­mente so­bre o ca­so. Ora, ia pen­san­do, se ele fos­se cor­rer as feiras to­das, as fes­tas dos mil e mil tem­plos do país; e al­in­han­do a sua bar­ra­ca com as out­ras, onde se ex­ibem sala­man­dras, crocodi­los, cri­anças sem pés e sem mãos, cães sábios e muitas out­ras coisas, que abun­dan­tís­si­ma chu­va de sapecas lhe não cairia em cima, quer diz­er, den­tro das man­gas do qui­mono!... «Meus sen­hores, en­trem to­dos! Quem não tem cabeça, não pa­ga na­da! Ora aqui es­tá uma sereia autên­ti­ca...», e já ia es­tu­dan­do o dis­cur­so que faria, sober­bo, dom­inador, im­pon­do-​se à plebe em­bas­ba­ca­da. Ou en­tão, out­ra ideia: se ele comesse a carne da sereia, co­zin­had­in­ha, fei­ta em postas...e sabem to­dos que a carne da sereia tem a vir­tude de con­ser­var per­pé­tuas a vi­da e a ju­ven­tude a quem dela provou... Mas a sua ín­dole bon­dosa re­voltou-​se afi­nal con­tra a lem­brança de reter nu­ma tina, em ex­posição, ou pi­or ain­da, de levar à de­go­la aque­le po­bre bi­cho, que so­bre a suas mãos se lamen­ta­va e des­fazia em pran­tos, co­mo se fo­ra uma pes­soa; con­tem­plou-​o ain­da, longa­mente; e com um no­bre gesto e de­ci­di­do es­forço, atirou a sereia às va­gas, donde viera, e onde mer­gul­hou e de­sa­pare­ceu sem mais cer­imó­nias, após um ace­nar de rabo, que pode­ria ser um adeus, um adeus e um agradec­imen­to. 

  O nos­so pescador voltou à sua faina. Con­sta que, naque­le dia mem­oráv­el, o cabaz se lhe encheu de uma es­pan­tosa quan­ti­dade de tu­do que o mar dá. À tarde, tor­nan­do a casa ajou­ja­do com a car­ga, baila­va-​lhe nos lábios um sor­riso, que prov­in­ha da boa pesca que fiz­era, e tam­bém da boa acção que praticara. 

  Quan­do pela noite, na co­zin­ha, man­gas do qui­mono ar­regaçadas até aci­ma dos so­va­cos, aven­tal so­bre as per­nas, sel­ha ao la­do, se dis­pun­ha a preparar a sua ceia, ou­viu que de fo­ra, e jun­to à por­ta, uma fal­in­ha mansa lhe ia dizen­do: 

  -Dá li­cença! dá li­cença?...-Corre o homem a abrir a corrediça, ain­da com a fa­ca da co­zin­ha, e um cara­pau na dex­tra adun­ca; e à luz frouxa de um lu­ar de quar­to min­guante, pôde dis­tin­guir um vul­to de mul­her em na­da ex­traordinário, porém doce e cortês, que lhe con­fes­sou ser uma vi­ajante ex­travi­ada no cam­in­ho, sem casa e sem abri­go, e lhe pe­dia poisa­da só para aque­la noite. 

  -En­tre de­pres­sa, meni­na –, acode-​lhe o su­jeito –, e ven­ha par­til­har do pouco que aqui ten­ho. -En­tão, dan­do-​lhe en­tra­da, con­duzin­do-​a 