ao aposen­to das vis­itas, fê-​la des­cansar so­bre a es­teira, e jun­to do bra­seiro, foi-​lhe servi­do o chá tradi­cional. 

  -Muito obri­ga­da. 

  O homem ro­gou-​lhe seguida­mente que es­perasse pela ceia, uma ceia de peixe por sinal, que ele ia aman­har sem per­da de um min­uto. 

  -Per­mite-​me que eu gan­he o di­re­ito ao meu quin­hão, aju­dan­do-​o nes­sa li­da? -Disse que não re­donda­mente, que nun­ca con­sen­tiria que os seus hós­pedes tra­bal­has­sem na co­zin­ha. Em ré­pli­cas e tré­pli­cas, a ra­pari­ga as­se­gurou-​lhe que pas­sara a vi­da to­da, além, da ban­da do oceano (talvez fil­ha de gente em­bar­cadiça? pescado­ra?) e que ela con­hecia as mel­hores re­ceitas de co­zin­har o peixe, no que até muitas vezes, por pas­satem­po, se ocu­pa­va; e tan­to ela teimou, sabem to­dos o que são teimas de mul­heres, que sem­pre foi levan­do a sua avante. 

  O que é cer­to, é que nun­ca o po­bre solteirão se lam­bera com tão de­li­ciosas petisqueiras. Comeu a sua dose, repetiu, pediu ter­ceira vez; e dizia, a chuchar ain­da as cabeças dos ruiv­os, que a pe­na que lhe fi­ca­va, era de não lhe ser servi­da uma ceia igual, to­das as noites. A com­pan­heira ob­ser­vou en­tão mod­esta­mente, a meias falas, que lhe pare­cia não ir além dos seus poderes, um tal de­se­jo; e in­sta­da a ex­plicar mel­hor a sua frase, acres­cen­tou que era solteira, sem par­entes, sem lar... Com­preen­di­da fi­nal­mente, o re­mate de tão fe­liz en­con­tro foi ela con­sen­tir em ser es­posa do su­jeito. 

  Antes, porém, im­pôs as suas condições. 

  -Dan­na, meu dono, eu ten­ho, co­mo disse, pas­sa­do a vi­da pe­lo mar, e não pos­so pre­scindir do meu ban­ho de água sal­ga­da ao menos uma vez ca­da se­mana; con­sente-​me is­to? Ele ace­nou que sim. -E ju­ra-​me -ago­ra vão ou­vir os pu­dores da pe­quer­rucha... -que me deixará ban­har em paz, sem seguir-​me, e sem se­quer espre­itar-​me? -Ele ju­rou que sim; e deu-​se por fe­liz (já se ia ba­ban­do pela moça, o ma­ga­não!) de, por tão pouco preço, ver-​se pos­suidor de tal tesoiro. 

  Casaram. Bo­das de es­tron­do; e viver­am di­tosos du­rante lon­gos meses. O peixe, o pra­to queri­do dos Nipóni­cos, foi sem­pre ex­ce­len­te­mente prepara­do pela es­posa, ac­ti­va, in­teligente, a rir-​se sem­pre. O par­go, em fa­tias cruas re­gadas com mol­hos ex­ci­tantes, era di­vi­no! As en­guias com ar­roz, uma delí­cia! O cald­in­ho de amêi­joas, su­perfi­no! As tru­tas as­sadas so­bre o lume, sem igual! E até uma cer­ta caldeira­da, as­sim co­mo quem diz à mo­da do Al­garve, era de es­ta­lo, sem fa­vor! E o mari­do tor­na­va-​se anafa­do e luzidio, a teste­munhar a to­da a gente, pe­lo vol­ume e pelas ban­has, que al­guém ol­ha­va por ele com desvelo... 

  Mas o ban­ho? Mel­hor fo­ra não falar­mos nele…

  Ai que pân­de­ga que era esse tal ban­ho!...Ela pas­sa­va a man­hã in­teira preparan­do-​o, afi­nan­do o apetite, po­dia-​se diz­er; e no ban­ho se que­da­va ho­ras es­que­ci­das, pela tarde. De­pois, ajoel­ha­da so­bre a es­teira, es­pel­hin­ho em frente, e em torno os cofrez­in­hos mis­te­riosos, era a in­ter­mináv­el tare­fa de faz­er-​se bela, ora bran­que­an­do as faces, ora aver­mel­han­do os lábios, ora com­pon­do o pen­tea­do. O es­poso chegara mes­mo a es­ta con­clusão não muito lison­jeira: que a com­pan­heira mais que­ria à água sal­ga­da do que a ele; mas per­doa­va-​lhe, out­ros há que bem menos in­ocentes capri­chos vão per­doan­do... e nun­ca a som­bra se­quer de um ar­rependi­men­to viera tur­var a paz do seu viv­er. 

  Uma bela tarde -tarde de ban­ho por sinal chegou o homem a casa, e, co­mo se diz em por­tuguês... cheio de fome. 

  -Tar­dará muito para a ceia? -resmunga­va. -Irá o b