an­ho em meio ou em princí­pio? 

  A es­posa, é claro, acha­va-​se in­visív­el, e com a port­in­ha fecha­da a sete chaves; mas casas japone­sas são casas de pa­pel, e uma fen­da, um ras­gão, con­vi­da-​nos a en­fi­ar os ol­hos para den­tro. O ca­so é que ele espre­itou. Sur­pre­sa! Hor­ror!... Não é uma mul­her, mas uma sereia, que se ban­ha­va, mel­hor dizen­do, que na­da­va, em de­mor­adas cir­cun­voluções de re­ga­lo ao lon­go da tina, ag­itan­do mansa­mente o rabo e as bar­batanas, e can­tarolan­do baix­in­ho canções do mar, canções das pra­ias...

  Po­bre mari­do! 

  -Ah! can­ta-​me as­sim -ex­clam­ou ele –, can­ta-​me as­sim, grande mostren­go!... Ago­ra perce­bo eu as tuas ha­bil­idades em li­dar com peix­es, li­das com os teus par­entes, grande mostren­go!... Mel­hor fo­ra, sem dúvi­da, que eu nun­ca te con­hecesse em tal es­ta­do, em tal nudez; mas, feito o mal, quer-​me pare­cer que nun­ca mais poderei tra­gar com apetite os teus guisa­dos, in­tru­jona... 

  A por­ta, abriu-​se en­tão e apare­ceu a es­posa. Chora­va, caíam-​lhe as lá­gri­mas a pun­hos; chora­va, mas digna, res­ig­na­da, lia-​se-​lhe no ol­har uma res­olução fa­tal. Falou as­sim, ajoel­han­do: 

  -Dan­na, meu dono, foi a sua benevolên­cia para mim, um dia, ex­trema, tiran­do-​me das águas, po­den­do faz­er da min­ha vi­da o que quisesse, e sal­van­do-​me. Trouxe-​me aqui um de­ver de gratidão: julguei com a min­ha pre­sença poder am­enizar a sua soledade, servin­do-​o co­mo es­cra­va. Deu-​me o nome de es­posa. A min­ha gratidão será eter­na. No en­tre­tan­to, aca­ban­do de ver-​me as­sim na min­ha for­ma ver­dadeira, um bi­cho, um mon­stro que mete me­do a to­da a gente, com­preen­do que a mis­são que tomei chegou ao ter­mo. Es­ta­la-​me o coração, mas pouco im­por­ta!...Dan­na, meu dono, adeus. Do céu lhe chovam bençãos... – E cor­reu para a pra­ia e de­sa­pare­ceu nas on­das.

  Po­bre mari­do!... Por um ac­to im­pen­sa­do, perdeu para sem­pre uma com­pan­heira car­in­hosa; e, co­mo das núp­cias com a sereia lhe re­sul­ta­va o dom de lon­ga vi­da, foi lon­ga a sua vi­uvez, e lon­go o seu martírio... 

  A fábu­la, se­gun­do ob­ser­va, e com critério, o au­tor japonês que con­sul­tei a tal re­speito, ofer­ece duas lições de al­ta moral. Uma é es­ta: a mul­her que pre­ten­da con­ser­var um bom mari­do, deve cativá-​lo pela bar­ri­ga, is­to é, pe­lo es­mero do seu repas­to; pare­cen­do averigua­do que o es­tô­ma­go é o órgão mais sen­sív­el, e por­ven­tu­ra o mais gra­to, do homem, o rei da cri­ação. A out­ra lição é a seguinte: o mari­do que de­se­je man­ter a har­mo­nia do seu lar, nun­ca in­ter­fi­ra na toi­lette ín­ti­ma da con­sorte; porque, is­to de damas -com sua li­cença -to­das lá têm o seu rabo, ou es­ca­ma, ou bar­batana, coisa en­fim que mel­hor é não se­ja con­heci­da, em proveito dos dois, e em con­formi­dade com o códi­go in­édi­to do amor, capí­tu­lo «Ilusões», ar­ti­go…es­que­ceu-​me ago­ra o ar­ti­go, meus sen­hores.

  1899.

  O PESCADOR URASHIMA

  A Joaquim Cos­ta

  Viveu em re­mo­tos tem­pos, num lu­gare­jo da cos­ta do Japão, Urashima, um moço pescador. Deste sim­ples, pouco ia tagare­lando a viz­in­hança: que tin­ha um coração propen­so ao bem, e que em de­streza ninguém o iguala­va, tratan­do-​se de artes de lin­has e de anzóis; na­da mais, mas já não era pe­queno o el­ogio. 

  Ora, um be­lo dia, saiu ele a pescar, soz­in­ho no seu bar­co. E que pescou Urashima dessa fei­ta? Oh! a sorte sor­ria-​lhe em tal ho­ra ...pescou uma enorme tar­taru­ga, com a cas­ca es­pes­sa e du­ra, a cabecita ru­gosa, de­nun­cian­do as­sim a grande ve­tustez; é notório que as tar­taru­gas vivem muito; vivem mil 