anos, no Japão. 

  Era um opí­paro jan­tar que o aca­so ofer­ecia ao po­bre pescador, pouco mi­moso de acepipes; jan­tar, ceia e al­moço, e mais ain­da, fo­ra os lu­cros que a cas­ca lhe trouxesse, mas o moço pôs-​se a cis­mar na cru­el­dade que ia come­ter, rouban­do as­sim talvez lon­gos sécu­los de vi­da àquele bru­to, fada­do pela sorte ao go­zo da ex­istên­cia, du­rante ger­ações e ger­ações da tri­bo hu­mana; e lem­brou-​se da mãe, da san­ta vel­ha que tan­tas vezes lhe en­si­na­va a ser car­ita­ti­vo com os bru­tos in­de­fe­sos... É cer­to que as mãos aban­donaram a pre­sa, num largo gesto de bon­dade; e a tar­taru­ga, vol­ven­do à água sem se faz­er ro­ga­da, lép­ida mer­gul­hou no azul e se safou das vis­tas.

  Fazia en­tão tan­to calor!... Era um dess­es dias abrasadores de Agos­to, em­be­bidos de paz, de luz, de tór­pi­dos aflúvios. Além, a aldeia que­da­va-​se na ses­ta, amodor­ra­va, jazia em aniquil­amen­to ab­so­lu­to; ape­nas, so­bre as ár­vores, can­tavam as cigar­ras, doidas de cio, es­ton­teadas... In­ter­rompera-​se nos cam­pos a faina da lavoira; nas choças es­can­car­adas, paten­teavam-​se os cor­pos nus, es­ten­di­dos em re­poiso, adorme­ci­dos, ban­hados em suor. E Urashima, no seu bar­co, ven­ci­do tam­bém pe­los ar­dores daque­la ho­ra, largou das mãos os re­mos e as lin­has, en­cos­tou-​se à ban­ca­da e adorme­ceu.

  En­tre­tan­to, eis que surge das águas um vul­to fem­ini­no, en­can­ta­dor. O episó­dio, que a tradição do po­vo foi re­tendo até aos nos­sos dias, pode ago­ra re­con­sti­tuir-​se em pen­sa­men­to. So­bre o con­vés do es­quife, poisa esse vul­to, es­sa fa­da adoráv­el de feitiços, en­vol­ta em roupas carmesins, solto o ca­be­lo às brisas e coroa­da a fronte com o di­ade­ma de oiro, que é apaná­gio das prince­sas; es­tende o braço de neve para o adorme­ci­do, to­ca-​lhe na fronte com as pon­tas dos de­dos del­ica­dos, e diz-​lhe de man­so es­tas palavras: 

  -Acor­da, Urashima, es­cu­ta-​me; eu vou con­tar-​te quem eu sou; sou a fil­ha do deus do oceano imen­so, habito com meu pai o palá­cio do dragão, no seio das on­das; a tar­taru­ga, que ain­da há pouco col­heste e resti­tuíste à liber­dade, era eu própria; meu pai im­pôs-​me um tal dis­farce, para que as­sim pudesse es­tu­dar-​te bem os sen­ti­men­tos; por sua or­dem e meu apraz­imen­to pes­soal, serei a tua es­posa, se me quis­eres; mil anos viver­emos sem­pre jun­tos, sem­pre jovens, sem­pre fe­lizes, no palá­cio do dragão, sob o azul das águas…

  Lá seguem os dois pe­lo mar fo­ra. Urashima em­pun­ha a es­par­rela da popa, mane­ja-​a com den­odo, dá-​lhe -pud­era não! -forças her­cúleas a ân­sia de chegar; a prince­sa poisa no out­ro re­mo as mãos franz­inas, e vai sor­rindo ao com­pan­heiro. E vão re­man­do, e vão re­man­do, sem que a fadi­ga os aque­brante, até que fi­nal­mente o bar­co al­cança o por­to de­se­ja­do, e já de longe o palá­cio se de­sen­ha, em ar­carias, em grim­pas, em mi­rantes recor­ta­dos. 

  Que en­can­to! que prodí­gio! nem mes­mo a fan­ta­sia ousara imag­inar tan­tos pri­mores!...As pare­des do palá­cio são de ren­da de coral; as ár­vores do jardim têm fol­has, es­mer­al­das, e fru­ti­fi­cam em péro­las e ru­bis; as es­ca­mas dos peix­es são de pra­ta, os ol­hos de dia­mantes, as cau­das dos dragões, de oiro lavra­do…

  En­tão, to­da a bicharia do oceano acode à pra­ia, vestin­do qui­monos de cer­imó­nia, e vêm saudar os noivos vi­ajantes. Após os cumpri­men­tos e os dis­cur­sos lau­datórios que pre­screve a eti­que­ta em ca­sos tais, a prince­sa, segui­da do corte­jo, en­tra no palá­cio; gorazes e ton­in­has se­gu­ram-​lhe a cau­da do vesti­do; poisa nas fo­fas es­teiras, de uma m