etic­ulosa limpeza in­de­scritív­el, as plan­tas al­vas dos seus pez­in­hos de­li­ciosos; des­cansa num salão que mais lhe apraz, pela delí­cia dos adornos e pela pais­agem que se avista, e a seu la­do ofer­ece um lu­gar ao com­pan­heiro. As tar­taru­gas, os peix­es, as lagostas, os dragões, a tur­ba en­fim dos es­cravos ju­bilosos corre a pros­trar-​se em frente da prince­sa; e de joel­hos, bar­batanas er­guidas em ofer­tório, começa servin­do em taças pre­ciosas o bran­co ar­roz co­zi­do, os licores, os fru­tos, os man­jares. 

  Urashima ex­ta­sia-​se di­ante do que é seu, bem seu, pois que é de sua es­posa. Du­rante três anos as­sim vivem, sem­pre jun­tos, sem­pre fe­lizes, sem en­fa­dos, sem nu­vens de tris­teza no céu dos seus amores; ora na paz da es­teira, no en­le­vo das mãos que se en­tre­laçam, dos ol­hos húmi­dos que se fi­tam, das palavras em seg­re­do que se tro­cam, das al­mas en­am­oradas que se dão; ora per­scru­tan­do os mis­térios do oceano, em ex­cursões pa­chor­rentas pelas flo­restas das al­gas vi­ajantes, por onde a vi­da aquáti­ca, de plan­tas, de an­imais, se mul­ti­pli­ca em mar­avil­has que a ninguém é da­do con­hecer; ora em lon­gos pas­seios pe­los jardins, onde as ár­vores não ces­sam de ve­stir-​se de ramos de es­mer­al­das, ver­gan­do ao pen­dor das péro­las e ru­bis. 

  Três anos decor­ri­dos. Um dia porém Urashima ac­er­ca-​se da es­posa e diz-​lhe pouco mais ou menos o seguinte: que a ado­ra e se sente di­toso, mas cresce-​lhe o de­se­jo de ir ver a sua aldeia, o vel­ho pai, a doce mãe, os ir­mãos, os anti­gos com­pan­heiros de tra­bal­ho; e prom­ete voltar após cur­ta visi­ta. En­tão, pela primeira vez sem dúvi­da, uma ligeira nu­vem de tris­teza, um va­go pressen­ti­men­to an­gus­tioso tur­varam o ol­har sereno da prince­sa. 

  -Vai -diz-​lhe –, vai, Urashima, porque as­sim o de­se­jas, em­bo­ra bem me pese, pois imag­ino que vais ex­por-​te a grandes riscos; le­va con­ti­go este pe­queno cofre, que al­gu­ma coisa con­tém, que te per­tence; sir­va-​te ele de lem­brança de quem muito te quer; mas nun­ca o abrirás, pois se o fizess­es, es­tarias per­di­do, e nun­ca mais voltarias a es­ta man­são do nos­so amor...

  E par­tiu, e abor­dou o so­lo pátrio…

  O que quer que era de bem es­tran­ho se pas­sara du­rante a ausên­cia de Urashima. Aonde es­ta­va a sua aldeia? Aonde se er­guia a ca­bana de seus pais? A mes­ma pra­ia loira, os mes­mos pene­dos car­co­mi­dos, os mes­mos cer­ros so­bre­pon­do-​se, ali lhe apare­ci­am, bem tais co­mo os deixara, na fria im­pas­si­bil­idade das coisas imutáveis; mas os povoa­dos ofer­eci­am out­ro as­pec­to, os cam­pos out­ro aman­ho; mas as ár­vores, que lhe havi­am da­do abri­go e som­bra, e de que tão bem se recor­da­va, er­guiam ape­nas tron­cos sec­os, al­gu­mas, porque out­ras já nem mes­mo ex­is­ti­am, e out­ras ár­vores medravam noutros sí­tios, pro­jectan­do out­ras som­bras, fru­ti­fi­can­do em out­ros fru­tos. Aonde fo­ra a sua aldeia, sur­gia ago­ra um pin­heiral. Re­con­heceu o mes­mo ar­roio, que serpea­va jun­to ao lar; e ain­da ago­ra a água cristali­na ia cor­ren­do, e sus­sur­ante, co­mo dantes; mas ago­ra de­ser­to, fal­tan­do o grupo gal­hofeiro das musumés que tin­ham por cos­tume ir ali lavar a roupa, en­tre elas as suas três ir­mãs, qui­monos ar­regaça­dos, per­nas nuas, braços nus, li­dan­do, palestran­do e rindo umas com as out­ras.

  Ao lon­go do are­al iam en­tão seguin­do dois su­jeitos. Urashima al­cança-​os e in­ter­pela-​os: 

  -Bons-​dias; fazem fa­vor de me diz­er onde é ago­ra a casa da família de Urashima? 

  Pen­saram, con­sul­taram-​se, coçaram a cabeça, bus­can­do recor­dar-​se. 

  -Urashima, Urashima... Urashima, o pescador? 