Tem graça tal per­gun­ta: há já qua­tro­cen­tos anos pe­lo menos, co­mo con­tam, se afo­gou ele quan­do pesca­va no seu bar­co, pois nun­ca mais apare­ceu; o seu pai, a sua mãe, os seus ir­mãos, os fil­hos dos seus ir­mãos dormem to­dos além no cemitério, há muito tem­po; a ca­bana que procu­ra, apo­dreceu antes de nos­sos avós serem nasci­dos, nem o pó dela se­quer ex­iste por aqui... 

  En­tão, co­mo um relâm­pa­go que acode subita­mente pela noite, a ilu­mi­nar a estra­da, uma ideia acud­iu de súbito ao pen­sa­men­to de Urashima, a alu­mi­ar-​lhe o es­píri­to. Ele ali es­ta­va, volvi­do à pá­tria, poisan­do os pés descalços no are­al da sua queri­da aldeia, re­lance­an­do as cur­vas da pais­agem em que por tan­tos anos a vista se pois­ara, e a recor­dação lhe gravara para sem­pre na memória. O palá­cio do deus do Mar, no abis­mo das on­das, com as suas pare­des de ren­da de coral, com os seus po­mares de fol­has de es­mer­al­das e fru­tos de péro­las e ru­bis, e os seus peix­es de es­ca­mas prateadas e ol­hos de bril­hantes, e os seus dragões de cau­das de oiro fi­no, não per­ten­cia à ter­ra, era do mun­do dos prodí­gios, re­gia-​se pelas leis do en­can­ta­men­to; um dia, dos seus dias, valia por muitos anos, dos nos­sos anos; e as­sim, sem que Urashima o su­pusesse, sécu­los so­bre sécu­los havi­am pas­sa­do so­bre a ter­ra, matan­do, de­stru­in­do, trans­for­man­do, ar­ra­stan­do as coisas e os in­di­ví­du­os à fa­tal­idade dos des­ti­nos, ao aniquil­amen­to, ao pó, ao na­da, surgin­do das ruí­nas out­ros as­pec­tos e out­ros seres...

  O anti­go pescador sen­tiu o calafrio da sua soledade; e o dis­parate anacróni­co da situ­ação em que se via, in­cu­tiu-​lhe no ân­imo não sei que hor­rív­el opressão de angús­tia e de pa­vor. Pá­tria? Sim, a mes­ma areia in­erte e os mes­mos mon­stros de gran­ito; mais na­da. Aldeia, ami­gos, as­pec­tos fa­mil­iares da sua mo­ci­dade, na­da havia; out­ras aldeias, out­ros as­pec­tos, out­ra gente, e para es­ta o nome de Urashima en­tra­va já na len­da. Em na­da o cati­va­va aque­la ter­ra. O an­seio de fu­gir, de volver ao es­plen­dor do seu palá­cio, acud­iu-​lhe en­tão, dom­inador; e a im­agem das mil graças da prince­sa mul­ti­pli­ca­va-​lhe o de­se­jo de aban­donar para sem­pre o so­lo onde nascera. Lançou um ol­har de adeus ao cemitério, esse no mes­mo poiso ain­da, mas mais vas­to e mais povoa­do de fregue­ses; e ia par­tir, deixar em paz a aldeia mor­ta... 

  Antes porém lem­brou-​se de abrir o cofre que re­ce­bera da prince­sa. Porquê? Talvez le­vian­dade, talvez mofi­no se­stro, que tan­tas vezes guia o homem a seguir pe­lo cam­in­ho proibido... Do cofre aber­to, que con­tin­ha na­da menos do que a es­sên­cia dos lon­gos anos cor­ri­dos, e ao mes­mo tem­po de­scon­ta­dos na ex­istên­cia de Urashima, es­capou-​se e pairou no es­paço uma ligeira nu­vem es­bran­quiça­da. Chama­do à razão, ao sen­ti­men­to da des­obe­diên­cia em que in­cor­rera, e ao me­do de um de­sas­tre, Urashima cor­reu so­bre es­sa nu­vem, desvaira­do, e bradou-​lhe que parasse. Era tarde. De pron­to, as próprias forças lhe fal­taram, e a voz se lhe ex­tin­guiu; a nu­vem en­volvia-​o; a nu­vem trans­porta­va-​o ao seu jus­to lu­gar nas pági­nas do tem­po, fazia-​o gal­gar de um pu­lo a grande bar­reira que o afas­ta­va dos seus con­tem­porâ­neos; as leis da ter­ra tin­ham pres­sa em cor­ri­gir er­ro taman­ho... Re­penti­na­mente, os ca­be­los, a bar­ba, bran­quear­am co­mo lin­ho, sul­cou-​se o ros­to em ru­gas, es­talou a pele do cor­po, os os­sos romper­am para fo­ra, as costas do­braram-​se num ar­co, viu-​se co­mo um mi­cróbio não sei quan­tas vezes sec­ular, co­mo um es­quele­to em férias, fugi­do do sepu