Title: O Senhor dos Navegantes
Author: Ferreira de Castro
CreationDate: Thu Jul 23 11:10:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Jan 21 21:00:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  O Sen­hor dos Nave­gantes

  Fer­reira de Cas­tro

  A pub­li­cação de O Sen­hor dos Nave­gantes foi gen­til­mente au­tor­iza­da pe­los herdeiros de Fer­reira de Cas­tro.

  © 1998, Herdeiros de Fer­reira de Cas­tro e Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8396-39-2

  Lis­boa, Fevereiro de 1998

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  O SEN­HOR

  DOS NAVE­GANTES

  Bran­ca, airosa, pe­queni­ta, er­gui­da so­bre o tope de uma col­ina, a Capela do Sen­hor dos Nave­gantes di­visa­va-​se de longe, co­mo um farol. E a ela, mais do que uma luz que bril­has­se na noite atlân­ti­ca, os pescadores en­vi­avam es­per­anças e de­ses­per­os quan­do em graves riscos se vi­am nas cavas e lom­bas do mar. Porque fi­ca­va al­ta, ao fim de ín­greme, pe­dregoso car­reiro, raras gentes lá iam, sal­vo em dia de fes­ta, com morteiros e fi­lar­móni­ca, uma vez ca­da ano. Fasci­na­do pela sua solidão e largueza panorâmi­ca, eu en­con­trara, porém, maneira de a atin­gir, naque­las tardes de Es­tio, sem me fati­gar. Para subir às mon­tan­has, um livro vale mais do que um bor­dão -e, com um livro sob o braço, pun­ha-​me a cam­in­ho. Lo­go que as per­nas se cansavam, sen­ta­va-​me e lia, en­quan­to os mel­ros iam can­tan­do nas vel­has ár­vores da en­cos­ta. Sem o livro, pe­queno se­ria o meu re­pouso e con­tin­uar­ia a as­cen­são antes de refeito, que a tendên­cia de quem an­da, leve ro­das, leve hélices ou ape­nas, mod­esta­mente, os pés com que nasceu, é, já se sabe, chegar com bre­vi­dade ao pon­to de des­ti­no -mes­mo que na­da ten­ha lá que faz­er. Com um livro, é out­ra coisa. Sendo bom, prende-​nos mais tem­po do que os braços de uma mul­her e só de­se­jamos in­ter­romper a sua leitu­ra no fi­nal de um capí­tu­lo ou em pará­grafo onde pos­samos re­tomá-​la facil­mente. En­tre­tan­to, as per­nas re­co­bram forças.

  Naque­la tarde, quan­do cheguei ao adroz­ito do Sen­hor dos Nave­gantes, de­mor­ei-​me a con­tem­plar o mar vas­to que dali se de­scorti­na­va, en­tão muito sereno, com suas ve­las gra­ciosas e fugidias. Em baixo, es­ten­dia-​se a grande pra­ia se­mi-​sel­vagem. À di­re­ita, rompen­do de en­tre um pin­hal e com o seu verde con­tra­stan­do, es­paire­ci­am ca­sitas mod­er­nas, to­das faceiras e col­ori­das, ao pas­so que, da ban­da opos­ta, aglom­er­avam-​se as bar­ra­cas dos pescadores, em for­ma de il­ha so­bre a areia e tão vel­has, ne­gras e roí­das pe­los anos co­mo se fos­sem as mes­mas que deixaram ali os primeiros habi­tantes do litoral. Dir-​se-​ia que o tem­po parara do la­do onde se tra­bal­ha­va rude­mente ao sol, muitas vezes de co­lab­oração com a morte, para se ac­ti­var ape­nas naque­le onde se des­cansa­va à som­bra tran­quila dos pin­heiros.

  Após esse lon­go ol­har de amor com que to­dos os dias eu en­volvia o oceano, a ter­ra e o céu, sen­tei-​me e dis­pus-​me a ler, co­mo de cos­tume. Lo­go, porém, que abri o livro, um ru­mor veio de den­tro da capela. Sur­preen­di­do, voltei-​me e notei que a por­ta es­ta­va semi­aber­ta. Era a primeira vez que is­to me acon­te­cia. Até en­tão, eu en­con­trara sem­pre ali o maior silên­cio, um aban­dono to­tal, com esse sa­bor poéti­co, fi­no, voe­jante, que parece des­ti­la­do pe­lo ar e é próprio das er­mi­das que padroam as mon­tan­has. Ago­ra, os ru­mores con­tin­uavam. Sen­ti pas­sos e vi um homem trans­por a por­ta. Trazia os braços fecha­dos so­bre nu­merosos ex-​vo­tos -bar­cos de cera e pe­quenos quadros, in­génuas pin­turas feitas so­bre madeira. Ao dar comi­go, es­ta­cou, c