on­trari­ado; teve, em segui­da, uma ex­pressão in­cer­ta, lo­go um movi­men­to de in­difer­ença, por fim di­rigiu-​se para o ex­tremo do adro. Desse la­do, o flan­co da col­ina de­scia quase a pique, até um ma­tor­ral que se es­ten­dia lá em baixo. Era um ter­rív­el de­spen­hadeiro e, para de­fe­sa de quem vin­ha ao Sen­hor dos Nave­gantes, havi­am con­struí­do um muroz­ito, que, da ban­da de den­tro, for­ma­va ban­ca­da em semicír­cu­lo. Ali o homem se sen­tou, a uns qua­tro met­ros de mim. 

  De­scon­tente com a sua pre­sença in­opor­tu­na, eu ia baixar, de no­vo, os ol­hos so­bre o livro, quan­do ele me disse: 

  -Provavel­mente, o sen­hor pen­sa que sou um ladrão... Não é ver­dade?

  É cer­to que eu havia pen­sa­do is­so, um mo­men­to antes. Havia mes­mo avali­ado as suas forças em re­lação às min­has e con­cluí­do que talvez ele me vencesse, em ca­so de lu­ta. Não que fos­se mais no­vo; de­via ter uns cin­quen­ta anos mal­trata­dos, en­quan­to eu não chegara ain­da aos trin­ta; mas o seu cor­po era mais ro­bus­to e os braços muito mais pos­santes do que estes, tão franzi­nos, de que eu me servia para pe­gar no livro. Os seus ol­hos não pre­cisavam de ócu­los, ao pas­so que os meus, sem auxílio de vidros não me per­mi­tiri­am dar dois pas­sos se­guros, mes­mo para fu­gir. E em­bo­ra as lin­has físi­cas dele não se mostrassem rudes, o fa­to que trazia, gas­to, poeiren­to, e não sei mais o quê do seu to­do, sug­eri­am a ideia de homem ha­bit­ua­do a tril­har as estradas do mun­do, de vara­pau na mão, ao as­salto da vi­da. 

  Hes­itei, talvez, al­guns se­gun­dos a re­spon­der-​lhe, porque ele, antes de me ou­vir, acres­cen­tou: 

  -Não, não sou um ladrão. Is­to -e apon­ta­va os ex-​vo­tos -per­tence-​me. Eu é que não os mereço... 

  Defini­ti­va­mente per­tur­ba­do, re­spon­di, en­fim, qual­quer coisa, não me recor­da o quê, uma necedade por cer­to, e ele voltou:

  -O sen­hor não é de cá, pois não? Es­tá a ve­ran­ear na pra­ia? 

  -Es­tou. 

  -Lo­go vi. A gente da ter­ra não tem tem­po para vir ler aqui para cima. Bem lhe bas­ta o tra­bal­ho. 

  Não en­ten­di lo­go se ele fala­va as­sim para me ser de­sagradáv­el ou sim­ples­mente para demon­strar a sua per­spicá­cia. 

  Os seus ol­hos voltaram a fixar-​me. Pare­ceu-​me ver ne­les um lume de ter­nu­ra, mas sen­ti-​me no­va­mente hu­mil­ha­do ao ou­vi-​lo diz­er: 

  -O sen­hor es­te­ja à sua von­tade. Eu não me de­moro. E não ten­ha me­do de mim. Não faço mal a ninguém. To­dos nós, é cer­to, já al­gum dia fize­mos mal -e eu fiz um grande mal, mas is­so foi há muito ano... -A sua voz repetiu, de mo­do pro­fun­do: -Há muito ano…

  -É claro que não ten­ho me­do -de­clarei, num tom frio. Na ver­dade, porém, eu en­er­vara-​me. Tornei a abrir o livro e fin­gi ler. 

  O homem calou-​se. Ver­ga­do so­bre os ex-​vo­tos, as suas mãos iam des­fazen­do os bar­cos de cera e ar­remes­san­do-​os para o abis­mo, para o sarçal que havia lá no fun­do. De­les reteve ape­nas a ex­trem­idade de um mas­troz­ito com a sua ban­deiro­la, que fez volte­jar na pon­ta dos de­dos, com o sor­riso de meigu­ice que se tem para as coisas frágeis, e lo­go en­fiou na botoeira do casaco. De­pois, es­ten­deu o braço, agar­rou uma pe­dra e deu-​se a par­tir os quadros onde se vi­am em­bar­cações de pesca em lu­ta com o mar em­brave­ci­do e o Sen­hor dos Nave­gantes de pé so­bre nu­vens. To­dos eles tin­ham datas, al­gu­mas sec­ulares, e leg­en­das de re­con­hec­imen­to, com muitos er­ros or­tográ­fi­cos e mal de­sen­hadas le­tras. O homem lia-​as antes de de­spedaçar as pe­que­nas tábuas onde elas es­tavam in­scritas e, em segui­da, lança­va os de­stroços lá para baixo, para o mes­mo lu­gar d