os bar­quitos de cera. En­tre­tan­to, pare­cia falar soz­in­ho: 

  -Nun­ca salvei ninguém... Ninguém! Eu bem o de­se­jaria faz­er, mas já não tin­ha força para is­so. Se estes se livraram da morte, foi ape­nas por cir­cun­stân­cias fa­voráveis... 

  Levan­tou-​se e voltou a en­trar na capela. Pen­sei ser o mo­men­to de me re­ti­rar. Ele ia jul­gar que eu era co­barde, mas is­so não me im­por­ta­va. «Ver­dadeira­mente», disse a mim próprio «o que bus­co nes­ta col­ina é sossego e sossego, ho­je, não ex­iste aqui.»

  Antes, porém, de eu haver toma­do uma de­cisão defini­ti­va, o homem surgiu, no­va­mente, no adro, com out­ra braça­da de ex-​vo­tos. Er­am, ago­ra, mãos, seios, cabeças e pés de cera. Ou por fal­ta de paciên­cia para os des­faz­er um a um ou por lhe ser ano­joso par­tir aque­les símiles de mem­bros hu­manos, que lhe acor­dari­am, por­ven­tu­ra, re­mo­tas su­per­stições, ele ac­er­cou-​se do muroz­ito e lançou os ex-​vo­tos, de uma só vez, para as pro­fun­di­dades do des­filadeiro. De­pois, que­dou-​se um mo­men­to, co­mo eu fiz­era antes, a con­tem­plar o oceano. 

  -O sen­hor gos­ta dis­to? -per­gun­tou, voltan­do-​se ligeira­mente para mim.

  Is­to é boni­to -re­spon­di-​lhe. – É um mag­ní­fi­co panora­ma... 

  Tornou a ol­har o mar e a ter­ra, lenta­mente. 

  -Sim, não é feio... -mur­murou. -Po­dia ter saí­do muito mel­hor, mas, en­fim... Já os Ro­manos gostavam deste sí­tio. Ninguém o sabe ain­da, senão eu, mas a ver­dade é que hou­ve aqui um cras­to. Ol­he, acolá, à es­quer­da, antes de se en­trar no adro, se al­guém es­cav­ar, en­con­trará restos de sepul­turas... E à pra­ia, lá em baixo, chegaram a vir muitas galeras... Ex­is­tia, en­tão, um pe­queno por­to, que o tem­po as­sore­ou... 

  Sur­preen­di­am-​me os seus con­hec­imen­tos e a pro­priedade com que fala­va. Ten­tei ex­am­iná-​lo mel­hor, mas o homem en­con­tra­va-​se no­va­mente de costas, sem­pre de ol­hos fixos ao longe. 

  -Efec­ti­va­mente -disse-​me, de­pois -se ol­har­mos bem para a ter­ra, para o mar e para o céu e se pen­sar­mos na grande var­iedade de seres que há no mun­do e em to­do este ad­miráv­el equi­líbrio plan­etário, parece-​nos que es­ta­mos per­ante um mi­la­gre. Não é as­sim? A si tam­bém não lhe parece o mes­mo, quan­do pen­sa, por ex­em­plo, nas vi­das sub­mari­nas? 

  -Sem dúvi­da, o mun­do é muito vari­ado e... 

  Ele in­ter­rompeu-​me: 

  -Eu sei que to­dos os home­ns pen­sam, so­bre is­to, mais ou menos o mes­mo. Um sim­ples in­sec­to, que en­con­tramos num monte e que pode­mos facil­mente es­ma­gar com o pé, se ele não fu­gir, é ca­paz de levar-​nos a med­itar so­bre o mis­tério da cri­ação, é ca­paz de ar­ras­tar o nos­so pen­sa­men­to por cam­in­hos ob­scuros que, mo­men­tos antes, não tín­hamos se­quer ad­mi­ti­do per­cor­rer…

  O homem in­ter­ro­gou-​me br­us­ca­mente: 

  -O sen­hor o que é? Qual a sua profis­são? 

  Eu disse-​lha e ele pare­ceu con­tente: 

  -Ah, muito bem! En­tão pode com­preen­der... Não é ver­dade que o mun­do parece feito por uma imag­inação por­ten­tosa? Por uma in­teligên­cia que nen­hum homem pode igualar? 

  -Al­gu­mas vezes ten­ho re­flec­ti­do so­bre is­so... -con­fes­sei, mod­esta­mente. 

  -Aí es­tá! -ex­clam­ou ele. -Aí es­tá! Mas o sen­hor en­gana-​se! Pe­lo menos, en­gana-​se em metade... 

  Aprox­imou-​se mais de mim. Eu es­ta­va sen­ta­do, ele de pé; eu tin­ha de ol­há-​lo de baixo para cima e sem­pre com re­ceio de que es­ten­desse as mãos e me dom­inasse. 

  -Ora di­ga-​me uma coisa... Nun­ca lhe pare­ceu que es­sa in­teligên­cia havia fi­ca­do a meio do seu tra­bal­ho? Que não tin­ha ido até onde parece q