ue pre­tendia ir? 

  -Não sei. A nos­sa razão tem lim­ites. Para além da nos­sa razão po­dem ex­is­tir out­ras razões, que não são ex­plicáveis... 

  -Era aí, jus­ta­mente, onde eu que­ria chegar! 

  Ao diz­er is­to, o homem sen­tou-​se ao meu la­do, do­bran­do-​se lev­emente para a frente, com os braços apoia­dos nas per­nas e as mãos jun­tas. A sua voz adquir­iu, en­tão, um mur­mure­jar de con­fidên­cia e de quem não sente pres­sa al­gu­ma: 

  -Tu­do cor­reu muito bem, a princí­pio declarou, co­mo se con­tin­uasse uma nar­ra­ti­va in­ter­romp­ida. -Eu tin­ha um poder in­fini­to. E uma imag­inação para além de to­dos os prodí­gios. Até eu me ad­miro, ho­je, dis­so. Bas­ta­va pen­sar uma coisa e o meu pen­sa­men­to ma­te­ri­al­iza­va-​se rap­ida­mente, adquirindo for­ma e vi­da. A min­ha fan­ta­sia não en­con­tra­va lim­ite al­gum e os habi­tantes das pro­fun­di­dades deste mar que es­ta­mos ven­do o at­es­tam. É um praz­er que o sen­hor não con­hece tornar re­al­idade o próprio ab­sur­do. Mas, nesse tem­po, tam­bém eu não sen­tia esse praz­er; eu não fazia ideia al­gu­ma do que era ab­sur­do e do que era lógi­co, do que era be­lo e do que era feio, do que era bom e do que era mau. Es­tas definições só se es­ta­bele­ce­ram mais tarde, jus­ta­mente quan­do sur­gi­ram os lim­ites... Eu cri­ava, cri­ava, co­mo num delírio. E não há dúvi­da de que a min­ha prin­ci­pal obra foi is­so a que os home­ns chamam o Uni­ver­so, a mecâni­ca ce­leste, o In­fini­to... Os sen­hores an­dam, com a vos­sa ciên­cia, a colo­car lá al­gu­mas bal­izas, mas é tra­bal­ho mais difí­cil do que se quisessem re­mover com uma col­her de chá a ter­ra de uma mon­tan­ha...

  En­quan­to ia fa­lan­do, o homem ol­ha­va para o chão, co­mo se não de­se­jasse ver nos meus ol­hos o efeito das suas palavras. De­pois, mu­dou o tom de voz: 

  -Um dia, porém, sen­ti-​me deca­dente. As aves, por ex­em­plo, são um in­dí­cio do meu de­clínio. Não sei se o sen­hor é vi­aja­do, se con­hece a Ásia e a Améri­ca, as grandes flo­restas trop­icais onde há aves mar­avil­hosas. Mas se não con­hece, não im­por­ta; tem vis­to is­so, pe­lo menos, nos livros com es­tam­pas mul­ti­col­ores. Parece-​lhe -não é ver­dade? -que há uma di­ver­si­dade deslum­brante, uma fan­ta­sia in­es­gotáv­el no mun­do das aves. Pois não é as­sim! Se ob­ser­var bem, verá que não é as­sim. A min­ha imag­inação havia já começa­do a diminuir, começa­va já a aprox­imar-​se do que viria a ser a imag­inação dos home­ns. Criei um pás­saro e os out­ros foram ape­nas vari­antes. Uti­lizei o primeiro mod­elo e fi-​lo de to­dos os taman­hos, des­de a avestruz, tão grande que pode ser cav­al­ga­da, até o col­ib­ri, que, de minús­cu­lo, se con­funde com um in­sec­to. A seguir, fi-​lo de to­das as cores e com to­das as com­bi­nações de cores. De­pois, em vez de cri­ar, pus-​me a ex­ager­ar de­ter­mi­nadas parce­las do que já havia feito. E cheguei, as­sim, até a car­icatu­ra da min­ha própria obra. A al­gu­mas das aves lim­itei-​me a es­ticar-​lh­es as per­nas, as cau­das ou os bi­cos, de tal for­ma que estes ficaram grotescos e muito maiores do que o cor­po. A out­ras dei-​lh­es uma am­pli­tude de asas de que não care­ci­am ou deix­ei-​lh­es ape­nas uns sim­ples co­tos. Variei-​lh­es, tam­bém, o ful­gor dos ol­hos e a com­posição dos seus gor­jeios, deixan­do umas eter­na­mente mu­das e obri­gan­do out­ras a cantarem até na ho­ra da morte. Mas tu­do is­so er­am sim­ples por­menores, porque, no fun­do, a ave, a ideia fun­da­men­tal, er­am a mes­ma. Eu pare­cia um dess­es artis­tas que re­al­izou, cer­to dia, uma de­scober­ta fe­liz e pas­sou, de­pois, o resto da vi­da a lu­tar de­ses­per­ad