a­mente para dar a ilusão de que não se repetia, quan­do, em re­al­idade, não fazia out­ra coisa senão pla­giar-​se a si próprio... 

  O homem calou-​se subita­mente e, so­er­guen­do a cabeça, ol­hou-​me pela primeira vez, des­de que se havia sen­ta­do. 

  -O sen­hor es­tá a pen­sar que sou um louco, não é ver­dade? 

  Foi en­tão que, por meu turno, baix­ei os ol­hos, ad­mitin­do de no­vo que ele pode­ria, em qual­quer mo­men­to, lançar-​me por cima do muroz­ito de res­guar­do, co­mo fiz­era aos ex-​vo­tos.

  -Não, sen­hor. Es­tou a ou­vi-​lo com muito in­ter­esse. O que acon­tece é que se vai fazen­do tarde…

  Ele ex­am­inou aten­ta­mente o céu, co­mo se medisse o Tem­po: 

  -Não, tarde não é... São ape­nas cin­co ho­ras…Dê cá um cigar­ro. 

  Pas­sei-​lhe o maço, me­teu-​lhe os de­dos, riscou, de­va­gar, um fós­foro, soltou o fu­mo e tornou: 

  -Com o mun­do veg­etal acon­te­ceu a mes­ma coisa. O que é uma ár­vore? O que é uma plan­ta? Uma raiz meti­da na ter­ra. Para evi­tar a mono­to­nia, tive de dar var­iedade às fol­has, às flo­res, aos fru­tos e aos aro­mas. Mes­mo aos tron­cos. Mas, ape­sar de tu­do, é sem­pre uma raiz meti­da na ter­ra. Ora não era is­so que eu que­ria. Eu não que­ria o mun­do sub­meti­do a uma repetição per­pé­tua. Eu de­se­ja­va que ele se mod­ifi­cas­se con­stan­te­mente. O sen­hor já pen­sou que pode­ri­am per­feita­mente ex­is­tir bosques aére­os e que o homem de­ve­ria an­dar no fun­do dos mares ou no es­paço ce­leste com tan­ta fa­cil­idade co­mo an­da aqui na ter­ra? O sen­hor não vê que os home­ns es­tão to­dos os dias a procu­rar cor­ri­gir os de­feitos do meu tra­bal­ho? O que é um avião ou um es­cafan­dro senão um re­men­do à min­ha obra? Mes­mo os que me ado­ram, pas­sam a vi­da a dis­cor­dar de mim e a tentarem emen­dar o que eu fiz. Quan­do im­plo­ram as min­has graças para as suas in­fe­li­ci­dades, não fazem, no fun­do, out­ra coisa do que cen­surar-​me, pois o que é uma sú­pli­ca senão uma re­vol­ta que não se pode ex­te­ri­orizar? -Sor­riu vaga­mente e ajun­tou. -Só não me amaldiçoam porque ain­da me jul­gam mais forte do que eles…

  Voltou a calar-​se. De­pois, cal­cou o cigar­ro, ain­da quase in­teiro, e, com um tom doce, melancóli­co, con­fes­sou:

  -Eles têm razão, coita­dos! Su­cumbi antes de re­alizar in­te­gral­mente a min­ha obra. O que de­via ser mutáv­el tornou-​se imutáv­el e as leis que ficaram a reger o mun­do são impiedosas. Eu só me lem­brei de cri­ar o homem muito tarde. Já havia feito os out­ros an­imais, já havia mes­mo es­go­ta­do to­da a fan­ta­sia no ex­agero dos por­menores, quan­do me ocor­reu uma out­ra vari­ante. A min­ha tendên­cia fo­ra, até aí, dar aos bi­chos qua­tro apoios so­bre a ter­ra ou so­bre as ár­vores. Pois bem! Aos novos seres eu daria, co­mo às aves, ape­nas duas patas. Mas o sen­hor não pode imag­inar o que sen­ti ao ver de pé, en­tre os out­ros, o no­vo casal. Eu es­ta­va a cri­ar o can­gu­ru e tão im­pres­sion­ado fiquei que lhe pus lo­go mais dois em­briões de per­nas e deix­ei-​o in­com­ple­to para to­do o sem­pre. No meio dos out­ros bi­chos, que se movi­am ale­gre­mente, com ju­bilosos ruí­dos na man­hã da sua vi­da, o homem e a mul­her, úni­cos que er­am ver­ti­cais, dir-​se-​iam dois pin­guins en­tre um ban­do de pás­saros chilre­antes. Ele ol­ha­va ao longe, sem saber co­mo ori­en­tar-​se. Mostra­va-​se tão triste, tão in­cer­to no seu des­ti­no, que tive de re­pente pe­na dele. Porque fo­ra tal­ha­do ao al­to, o seu próprio sexo se ap­re­sen­ta­va menos ocul­to do que o dos out­ros an­imais e pare­cia vexá-​lo. No oca­so do meu poder, eu começa­va a atribuir, por fraque­za imag­ina­ti­va, difer­entes 