funções a um mes­mo órgão. Para as aves bas­tara-​me um tubo de vazão; para os out­ros viventes criei, inu­til­mente, dois -e ao se­gun­do im­pus uma du­pla util­idade. Quan­do ver­ifiquei o er­ro, era de­masi­ado tarde: dali em di­ante, a própria vi­da hu­mana bro­taria de um cano de es­go­to. As­sim, a piedade que eu sen­tia pe­lo homem ia-​se tor­nan­do ca­da vez maior. Hes­itei um mo­men­to e de­ci­di: «É a este que eu me darei. É a este que eu darei o que ain­da res­ta de grande em mim.» E fun­di a min­ha decadên­cia, o crepús­cu­lo da min­ha potes­tade, naque­le melancóli­co an­imal. Foi out­ro er­ro, o meu maior er­ro. O homem ficara com to­das as as­pi­rações de um deus e não era com­ple­ta­mente deus. Sur­gi­ram, de­vi­do a is­so, in­úmeros con­fli­tos. O homem que­ria ser eter­no co­mo o deus que ele guar­da­va den­tro de si e era, pe­lo con­trário, tão efémero co­mo os out­ros an­imais. Que­ria ser fe­liz, im­peli­do por aque­la ob­scu­ra rem­inis­cên­cia de quan­do uma parte dele me per­ten­cia a mim, sua di­vin­dade, e havia de pas­sar milénios so­bre milénios a lu­tar para ser fe­liz, sem nun­ca o poder ser por muito tem­po. Só o era in­te­gral­mente por al­guns min­utos e jus­ta­mente quan­do fe­cun­da­va no­vas dores hu­manas. Eu havia-​o deix­ado tão de­sam­para­do e com tan­tos prob­le­mas a re­solver, que a própria cav­er­na, em vez de ser ape­nas um pon­to de par­ti­da, foi, ao con­trário, um pon­to de chega­da -a sua primeira con­quista. O mun­do ficara im­per­feito e o homem com uma ân­sia de per­feição im­pos­sív­el. O mun­do ficara in­com­ple­to, in­jus­to e sem fi­nal­idade visív­el e o homem deu-​se a lu­tar para que o mun­do tivesse para ele tu­do aqui­lo que o mun­do não tin­ha. Quan­do não pode lu­tar de out­ra maneira recorre às hipóte­ses. São as hipóte­ses que o têm am­para­do des­de que ele vive. Eu sin­to re­mor­sos, creia, por tu­do quan­to fiz... Sin­to es­pe­cial­mente re­mor­sos por tu­do quan­to não cheguei a faz­er.

  O meu in­ter­locu­tor levan­tou-​se, me­teu as mãos nos bol­sos e cam­in­hou, co­mo opres­so, até a ex­trem­idade do muro que nos pro­te­gia do abis­mo. Vi-​o ol­har lá para baixo, para os de­stroços dos ex-​vo­tos, vi-​o, de­pois, es­ten­der a vista até ao mar e, em segui­da, voltar-​se para mim: 

  -En­tão, eu próprio come­cei a lu­tar tam­bém con­tra a min­ha obra. É claro que, ao fundir-​me no primeiro homem, fiquei mor­tal co­mo ele. Mas go­zo, ao con­trário dos out­ros, o priv­ilé­gio de guardar memória das muitas vi­das que ten­ho vivi­do. Lem­bro-​me de tu­do des­de o começo do Tem­po, des­de que fiz o mun­do. E nis­so es­tá o meu prin­ci­pal sofri­men­to, porque a memória, para quem prati­cou o mal, é, co­mo se sabe, o maior cas­ti­go que ex­iste. Sofro ain­da porque os home­ns lev­am, às vezes, mil­hares de anos para acred­itar no que é ev­idente. Quan­do lh­es di­go a ver­dade, eles mal­tratam-​me. Quan­do lh­es gri­to, por ex­em­plo: «O mun­do es­tá mal feito e é pre­ciso, den­tro das vos­sas pos­si­bil­idades hu­manas, cor­ri­gir o mun­do» -os mais fra­cos, os mais in­gén­uos, fi­cam a ol­har para mim, du­vi­dosos ain­da so­bre se é ou não ver­dade o que lh­es di­go, en­quan­to os mais fortes man­dam ime­di­ata­mente perseguir-​me. Se, para me de­fend­er, declaro: «Ten­ho a certeza de que es­tá mal feito, pois fui eu próprio quem o fez»  en­tão con­sid­er­am-​me louco, bruxo, herege, vi­sionário, e perseguem-​me da mes­ma maneira. Pou­cas vezes ten­ho mor­ri­do na ca­ma, co­mo mor­rem os gen­erais e a maio­ria dos out­ros home­ns. Ao con­trário, ten­ho si­do es­quar­te­ja­do, queima­do vi­vo, cru­ci­fi­ca­do, en­for­ca­do, fuzi­la­do, guil­hoti