na­do, elec­tro­cu­ta­do e gasea­do. A ca­da uma das min­has vi­das foi sem­pre apli­ca­da a mo­da a que ca­da época e ca­da po­vo obe­de­cem para matar os seus in­imi­gos. Dis­so não ten­ho que me queixar... acres­cen­tou com um sor­riso. -Há pouco, con­tei-​lhe que, ali, à en­tra­da do adro, se en­con­tra um vel­ho cemitério ro­mano. De­cer­to, o sen­hor não acred­itou. Com­preen­do per­feita­mente: no seu lu­gar, eu tam­bém du­vi­daria. Mas pode ter a certeza de que es­tou lá... Ou, se já não ex­iste resí­duo al­gum do meu cor­po de en­tão, deve es­tar lá, pe­lo menos, uma fíbu­la que eu us­ava nesse perío­do. En­ter­raram-​me ali de­pois de me terem su­pli­ci­ado bru­tal­mente, só por eu haver di­to que, co­mo cri­ador que fo­ra do mun­do, vivia a pen­iten­ciar-​me do meu tremen­do er­ro. Eles jul­gar­am que eu pre­tendia, com is­so, ser mais im­por­tante do que o im­per­ador de Ro­ma e liq­uidaram-​me…

  Um ban­do de gaiv­otas ladeou a col­ina, so­brevoan­do a pra­ia. A luz ia dimin­uin­do de in­ten­si­dade e dan­do cores suaves aos arredores da capelin­ha, ao próprio adro, onde a voz do homem prosseguia: 

  -Se eu lhe con­tasse o que ob­servei e sofri através dos Tem­pos! Mas nun­ca mais acabaria e ve­jo que o sen­hor es­tá com pres­sa…O que me valeu nos úl­ti­mos sécu­los foi a in­ter­venção da ti­pografia. Sem is­so, teria sofri­do ain­da mais, da­do que as min­has úl­ti­mas vi­das pas­sei-​as, quase in­teira­mente, nas prisões. As­sim, sem­pre ar­ran­jo al­gu­ma coisa para ler. Ten­ho li­do muito, muito; des­de há qua­tro­cen­tos anos quase não faço out­ra coisa. Por um la­do, a leitu­ra dis­trai-​me, le­va-​me a es­que­cer a cadeia; por out­ro, tor­tu­ra-​me, pois é pe­los livros dos home­ns que eu ve­jo, so­bre­tu­do o dra­ma que criei... Ul­ti­ma­mente, lá no man­icómio, só que­ri­am dar-​me livros op­ti­mis­tas, livros em prol. Os médi­cos afir­mavam que es­sas obras não me des­per­tari­am ideias som­brias... Mas eu protestei ime­di­ata­mente... 

  -Ah, o sen­hor es­teve no man­icómio? per­gun­tei, de mo­do tími­do. 

  -Es­tive -re­spon­deu-​me ele, com nat­ural­idade. -Não ten­ha me­do de me ofend­er, pois des­de o princí­pio adi­vin­hei que o sen­hor pen­sa que eu sou um louco. Não me ofende na­da... To­dos têm pen­sa­do de mim a mes­ma coisa, já lhe disse. Es­tive e lá es­taria ain­da se, on­tem, não ten­ho con­segui­do fu­gir. Es­ta­va lá ia já para oito anos. E sabe porquê? Porque, um dia, en­trei nu­ma igre­ja e gritei aos crentes que se en­con­travam ajoel­ha­dos: «Não vos re­signeis, pois o mun­do que eu fiz é muito im­per­feito e, por­tan­to, pre­cisa mais do vos­so es­forço do que da vos­sa res­ig­nação. Im­per­feito há-​de ele ser sem­pre e vós tam­bém; con­tu­do, em mui­ta coisa podeis aper­feiçoar o mun­do e a vós próprios. Mas não é de joel­hos que o fareis; é de pé e a lu­tar! Quem vos fala já foi Deus e sabe por que fala as­sim…» 

  O homem ol­hou-​me, co­mo se, des­ta vez, lhe in­ter­es­sasse con­hecer a min­ha reacção. Ven­do que eu con­tin­ua­va cal­ado, teve um sor­riso melancóli­co e con­tin­uou: 

  -O que fui diz­er! Só as im­agens dos san­tos ficaram im­passíveis... Mas o Cristo, no al­tar-​mor, pare­cia con­tem­plar-​me meiga­mente, com um ar se­cre­to de cumpli­ci­dade. Dos fiéis, uns ol­havam para mim, es­can­dal­iza­dos, out­ros fazi­am es­forços para não se rir... Jun­to do al­tar da Sen­ho­ra dos Afli­tos en­con­tra­va-​se, ajoel­ha­da, uma po­bre mul­her, a úni­ca que, naque­la man­hã, es­ta­va ali com ver­dadeira unção. Ela tin­ha um fil­ho à morte e não tin­ha re­cur­so al­gum, nem para o médi­co, nem para os medica­men­tos -para na­da. Viera ali ped