ir ao céu que lhe sal­vasse o fil­ho, pois era o céu a úl­ti­ma es­per­ança que lhe resta­va. Sen­ti tan­ta pe­na por es­sa mãe in­fe­liz, que me aprox­imei do al­tar, es­ten­di os braços para a im­agem da Sen­ho­ra dos Afli­tos e tirei-​lhe do pescoço um dos muitos cordões de oiro que os de­vo­tos lhe havi­am ofer­eci­do. Quis en­tregá-​lo à mul­her, dizen­do-​lhe: «Vende-​o e vai a cor­rer chamar o médi­co!»  Mas a mul­her, de­pois de limpar as suas lá­gri­mas, en­car­ou-​me com re­pugnân­cia, co­mo se eu fos­se o próprio di­abo -e re­cu­sou o cordão. Teimei: «Despacha-​te senão o teu fil­ho pode mor­rer!» Ela con­tin­uou a re­cusar e a ol­har-​me com de­spre­zo. En­tão, sem­pre com piedade por ela e pe­lo fil­ho, re­solvi men­tir: «An­da! Pe­ga lá! Não ten­has es­crúpu­los! Eu sou o in­stru­men­to de que Nos­sa Sen­ho­ra dos Afli­tos se serviu para te aju­dar.» Ela hes­itou um mo­men­to. Ol­hou a im­agem, ol­hou para mim, mas não cheguei a saber se se havia de­ci­di­do a aceitar aqui­lo. A igre­ja enchera-​se de gri­tos: «É louco! É louco! É ladrão! É ladrão! Quer roubar a Nos­sa Sen­ho­ra dos Afli­tos!» Um polí­cia que es­ta­va tam­bém ajoel­ha­do, levan­tou-​se, avançou para mim, tirou-​me o cordão e pô-​lo, de no­vo, ao pescoço da im­agem. De­pois, or­de­nou-​me que saísse na sua com­pan­hia... O sen­hor es­tá a ver o que acon­te­ceu…Se, on­tem, não apan­ho um guar­da dis­traí­do e não salto o muro, não es­taria ago­ra aqui a falar con­si­go... 

  Ofer­eci-​lhe out­ro cigar­ro. Ele re­cu­sou-​o com um gesto.

  -São ho­ras de nos ir­mos em­bo­ra -disse, em­pre­gan­do O plu­ral, co­mo se es­tivesse cer­to de que eu par­tiria, com ele, do Sen­hor dos Nave­gantes. Real­mente, eu deixara de o temer. 

  Atrav­es­sá­mos o adro. Ao pas­sar­mos jun­to do lo­cal que ele me dis­sera haver si­do um cemitério ro­mano, vi-​o de­ter-​se. Os seus ol­hos pare­ci­am bus­car, sob as plan­tas sil­vestres, um de­ter­mi­na­do sí­tio. En­con­trou-​o, de­cer­to, porque ver­gan­do a cabeça, gri­tou para den­tro da ter­ra:

  -Cá es­tou! Ou­ves? Cá es­tou e vou con­tin­uar a lu­tar! 

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