Title: Os Gatos
Author: Fialho de Almeida
CreationDate: Fri Jul 17 15:40:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Apr 08 06:20:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  Os Gatos

  Fi­al­ho de Almei­da

  Os ex­cer­tos aflui pub­li­ca­dos foram ex­traí­dos do livro Os Gatos.

  © 1998, Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8396-44-9

  Lis­boa, Março de 1998

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  OS GATOS

  10 de Dezem­bro

  Setúbal é, co­mo nat­ural­mente sabem, uma cidade pe­que­na, na margem do Sa­do, viven­do ma­gra­mente de ban­his­tas e fábri­cas de sardinha. Tem qua­tro vel­has paróquias, de ro­da de cu­jas igre­jas se en­roscam vielas nau­se­abun­das, dois con­ven­tos ou três, sem maior im­portân­cia ar­que­ológ­ica -ex­cepção fei­ta ao de Je­sus, de que falarei de­pois com mais va­gar -e co­mo obras mod­er­nas, uma ex­ten­sa aveni­da marginal sem ter­raplenos de cais ocul­tan­do a imundí­cie da pra­ia cober­ta de de­jec­tos, al­guns des­maze­la­dos jardins im­passeáveis, e uma es­tá­tua a Bocage, vesti­da de cri­ado de ópera, de­fronte dum por­tal góti­co, e ao pé dum cha­fariz seco. Na var­rus­cadela à pres­sa das ruas, na brunidu­ra módi­ca de cer­tas ca­sitas no­vas, na or­na­men­tação dos pas­seios e alamedas sub­ur­banas, uma pelin­trice salta, de cidade que se acap­ita­la, sem es­tipên­dios fixos, par­tic­ulares ou mu­nic­ipais, e a quem a ne­ces­si­dade da clien­tela ban­hista im­põe, no Verão, de­spe­sas, cu­jos fru­tos a penúria do In­ver­no inu­ti­liza.

  Nos bair­ros vel­hos, co­mo as con­struções são prim­iti­vas, nu­lo o con­for­to, a higiene um mero ac­inte, acon­tece que a po­dridão dos lares corre nas ruas, de­scober­ta, em jor­ros ne­gros, cu­jo far­tum hu­mano se in­trom­ete ao do peixe po­dre, e ao dos mon­tur­os acogu­la­dos pe­los can­tos. Es­ta povoação de meias su­jas, vel­ha e mesquin­ha, es­pé­cie de Ribeira Vel­ha com­pli­ca­da de Alfama e Cruzes da Sé, alas­tra-​se à beira-​rio num leque bran­co, ci­cun­tor­na­do de po­mares e de ar­vore­dos, para além de cu­ja fím­bria se al­teia de­pois um aro de ser­ras mag­ní­fi­cas, com tiaras de rochas e pin­hais.

  Estes po­mares, laran­jais na maior parte, que a epi­demia ar­ra­sou em al­guns anos de dev­as­tações não com­bat­idas, foram por muito tem­po em Por­tu­gal um oá­sis raro, tor­nan­do o vale de Setúbal nu­ma cor­beille-​caçoila, re­con­struí­da so­bre de­sen­hos do Éden, e a que pare­cia es­tar de guar­da, Palmela, a pru­mo na ser­ra, crenela­da e es­tu­pen­da, com o seu formidáv­el ar de nin­ho de dragões. A laran­jeira mor­ta, as vin­has filox­er­adas, out­ras fron­des co­bri­ram a argi­la riquís­si­ma das veigas, ár­vores no­vas supri­ram, nos re­ga­dios das quin­tas, os cadáveres das anti­gas, e o pin­heiral de­sceu até dos pín­car­os, a povoar as cal­vas que os agricul­tores não re­plan­tavam. De sorte que o forasteiro sin­cero, de­pois que passea­do na cidade, se vai desin­fec­tar do seu mau cheiro aos cam­pos, ao sur­preen­der o con­traste da obra de Deus com a dos home­ns, a primeira oração que faz é pedir aos céus o ter­re­mo­to, ago­ra que o mar­quês de Pom­bal já cá não vol­ta, com um in­dul­to para o Con­ven­to de Je­sus, para os caste­los de S. Fil­ipe da Ser­ra e S. Tia­go de Out­ão, para os por­tais da igre­ja do Sapal, e al­gu­mas mi­udezas mais de que este exíguo roteiro não dá con­sel­ho.

  Foi o que eu fiz em to­da a con­sciên­cia, de­pois dum dia de pas­seios no Bon­fim e gasosas no Lapi­do, ven­do as sé­cias alen­te­janas, com co­lares de va­ri­na, pavon­ear modas con­fec­cionadas nos ate­liers da Rua do João Ga­lo e Be­co das Donze­las, so­bre fazen­das de qua­tro­cen­tos e qua