renta o metro, en­tran­do as guarnições.

  Fui-​me pròs cam­pos, e co­mo tin­ha os ou­vi­dos cheios de sump­tu­osi­dades reais da torre de Out­ão, tomei um car­ro e fiz-​me trans­portar té lá, no de­ci­di­do propósi­to dum in­quéri­to for­mal so­bre as quan­tias e luxo es­par­so naque­le troní­cio es­tábu­lo de Verão.

  Há um macadame de via larga, en­tre a cidade e o caste­lo, à beira-​rio (a famosa estra­da de cin­quen­ta con­tos o quilómetro, fei­ta em três meses, a tiros na rocha, cos brita­dores sus­pen­sos de cor­das, a medonhas al­turas so­bre o rio), e as­sim o per­cur­so anti­go se abre­via, por maneiras de pôr Out­ão num arra­balde quase da cidade. Ape­nas trans­pos­ta a casaria do arra­balde, a poente, e os po­mares e jardins da casa O'Neill, começa uma ram­pa leve a nos faz­er subir os planal­tos primeiros da ri­ba Sa­do. À es­quer­da o rio alarga-​se; pela di­re­ita, montes cav­al­gan­do, vin­he­dos, ár­vores, moin­hos: e para trás Setúbal, e S. Fil­ipe a cav­aleiro. Jibóia a estra­da em su­ces­sivos ziguezagues, sem afas­tar-​se da água um só mo­men­to, trepan­do sem­pre, de sorte que a pais­agem des­fru­ta­da, da To­ca do Pai Lopes à Comen­da, não faz senão ir de­cu­pli­can­do o raio da mais em­bria­gante mar­in­ha que ol­hos touristes po­dem con­tem­plar. A poucos met­ros da To­ca, que é um corre­dor tri­an­gu­lar en­tre duas mas­sas de salão de­sagregáv­el, sep­aradas talvez por al­gu­ma co­moção sub­ter­rânea, a estra­da de­spe­ga um ra­mal que de­sce à pra­ia, paran­do à por­ta de Al­bar­quel um vel­ho forte de can­taria, quadra­do e in­ofen­si­vo, co­lab­oran­do nas anti­gas obras de de­fen­são do rio, e com al­gu­mas peças fer­ru­gen­tas na platafor­ma, para en­viar descar­gas à flor da água. O forte ho­je é casa de Verão do Sr. Peito de Car­val­ho, que anex­ou jar­dinetes à es­plana­da, tor­nan­do as caser­nas em residên­cia con­fortáv­el, e en­vol­ven­do os can­hões nu­ma camisa de trepadeiras cas­catantes. An­da-​se além, e a estra­da trepa mais, so­bre ver­dadeiros montes ago­ra, in­ter­nan­do-​se ao de leve, para nos faz­er gozar to­dos os pon­tos panorâmi­cos do seu cur­so; e as­sim, jun­to à Comen­da, no mais so­bran­ceiro trâmite do macadame, a duzen­tos met­ros da água, o es­pec­tácu­lo é quan­to pode ser de ex­táti­co e mag­ní­fi­co! Tem-​se pra baixo, à es­quer­da, es­borci­nan­do o ol­har da amu­ra de madeira, fun­dos pre­cipí­cios, rev­oluções de ter­ra que as águas cas­ti­garam, calvários desta­ca­dos, rav­inas br­us­cas, que­bradas, tu­do du­ma cor ver­mel­ho-​sangue, cor­ta­da de verde-​bronze, ou su­jo, ou mais vi­vo, ou mais vi­olen­to, e so­bre este cas­co de gan­gas fer­rug­inosas, da cor trág­ica das guer­ras e dos poentes, pin­heiros di­re­itos, de­cap­ita­dos nas co­pas, es­gal­ha­dos lugubre­mente nas braçadas, al­ter­can­do en­tre si co­mo cruzes que se dis­putam um mau ladrão para um su­plí­cio.

  Pela di­re­ita to­da, sem­pre a ser­ra, com as suas mas­sas de argi­las fus­cas, areias quater­nárias, cal­haus con­glom­er­ados em cabeçor­ras nuas, lá nos pín­car­os -a ser­ra a de­spen­har-​se so­bre o vian­dante, cheia de ci­ca­trizes dos tiros dos brita­dores, las­ca­da a pru­mo por macha­dos de cilopes fu­riosos, e curvete­an­do sem­pre, e des­do­bran­do-​se com um ex­traordinário pitoresco de ag­ul­has, crenéis, con­trafortes de apoio, lin­has, so­cal­cos, fusti­ga­da da luz, ze­bra­da de nevoeiro, em destaques cruéis e es­curos rem­brandtescos e du­ma in­fini­ta poe­sia de ajoel­har e diz­er os hi­nos de Eu­ri­co so­bre o Calpe! Tal a visão da ter­ra. Para ex­prim­ir a do rio, necessário se faz f1uidar tin­tas de es­ti­lo té um in­verosímil lance de gradações