 quase in­cor­póreas, ter ligeirezas de tom ca­pazes de ex­prim­ir não sen­sações, mas son­hos de sen­sações, al­mas de cores, tão va­porosa ima­te­ri­al­idade se ex­ala dessa mar­in­ha úni­ca de har­mo­nia, em­bal­ado­ra de idílio, a en­tredi­zer, num mur­múrio de bei­jos, co­mo o Ham­let:

  …dormir, talvez son­har, talvez!...

  - Dormir, son­har... Oh! co­mo a baía gan­ha, en­tre Setúbal e Tróia, tons de safi­ra e azul-​fer­rete, du­ma fres­cu­ra de mar grego, onde as sil­hue­tas dos bar­cos põem sua asa níti­da e can­tante! Atrás de nós a cidade é uma manch­in­ha jovial, en­tre azuis de água e verdes de ar­vore­do, com as gredas da Saúde, amare­las de bílis, con­tra­stan­do; de­pois na out­ra margem do gol­fo, Tróia e as areias bran­cas, in­va­so­ras, pal­hetadas de mi­ca, avançan­do a es­tran­gu­lar o corre­dor da en­tra­da dos navios, e para além de Tróia o mar in­tér­mi­no, com gar­gal­hadas de es­puma em pelotões so­bre os ban­cos de areia afo­ga­dos na água vi­va, o mar rison­ho, o mar supre­mo, com seus mosqueios de chis­pas cáus­ti­cas, lis­tras claras ze­bran­do-​lhe o azul-​ven­tre-​de-​carpa, e aque­les fun­dos de azul-​páli­do, que ao achegarem-​se à rocha vêm cam­bian­do até ao verde-​ul­tra­mari­no. Abaixo de ca­da rav­ina ou con­vul­são vi­olen­ta das bar­reiras, um port­in­ho doce, al­cat­ifa­do de bran­co, cheio de con­chas e al­gas, onde ro­manescos saveiros se bal­ançam: -e um tal silên­cio, um sossego, que as mes­mas gaiv­otas cam­in­ham com o acen­to cir­cun­flexo das asas, à procu­ra du­ma ex­cla­mação mais al­ta, pra ve­larem... A car­ru­agem in­ternou-​se ago­ra en­tre duas col­inas re­dondas, vin­he­dos e oliveiras, vêem-​se casas, uma capela sem cruz, com as janelas do coro atochadas de mol­hos de feno -postes de pe­dra apoian­do latadas já sem uvas, ciprestes e ce­dros em avenidas en­tre as cepas, e in­da ar­rib­anas, e alpen­droadas com uten­sílios de cul­tura, car­ros de ma­to em fueiros, tonéis sem ar­cos, e al­fim, nu­ma pirâmide de rochas, en­tre eu­calip­tos e abetos, à beira de água, a casa no­bre da quin­ta da Comen­da, pro­priedade dum conde de Ar­mand, anti­go em­baix­ador francês, em Por­tu­gal. É o mo­men­to em que a estra­da, deixan­do o es­tran­gu­la­men­to en­tre mon­tan­has, resvala do­ce­mente à ribeira de Aju­da, uma rison­ha gar­gan­ta, que, en­feixan­do os cam­in­hos de água dos mamelões das ser­ras próx­imas, abre até ao mar seu largo leito, en­tre dec­orações alpinas, e basti­dores de piçar­ra e ma­to inim­itáveis.

  A estra­da cir­cun­tor­na a gar­gan­ta, em fer­radu­ra, co­mo se quisesse pro­lon­gar ao vian­dante o an­gelus da cis­mado­ra beleza ali goza­da, e aprovei­ta o es­tran­gu­la­men­to que os re­gatos da ser­ra fazem à en­tra­da, pra lh­es saltar por cima, e prosseguir, cingi­da ao con­traforte de além, té aos balu­artes de Out­ão, out­ra vez ago­ra à beira de água. Mas que sossego! nem um ru­mor de­spaisan­do a qui­etu­ra unís­sona desse mi­moso e grá­cil paraí­so! al­gum pas­sar­ito nos medron­hais do ma­to a pip­iar, sem eco, éclo­gas do tem­po em que não havia se­tas nem es­pin­gar­das. No chão da ribeira, fo­fos tapizes de er­va eter­na­mente verde, fe­tos mui ténues, íris de água e capilárias em pe­quenos pufs de fol­hagem. Pór­ti­cos de gran­ito, com bo­taréus gros­seiros, iso­la­dos co­mo monól­itos de sepul­cros, restos da anti­ga guarnição mu­ral da pro­priedade, ho­je em ruí­nas. À di­re­ita e à es­quer­da, mon­tan­has gi­gan­tescas, com o pe­plum de argi­las ro­to, e mame­las de rochas en­car­oçadas de cal­haus, to­das à mostra. De­pois ao fun­do, cóni­cos montes de pin­hais verde-​es­mer­al­da, pen­etra­dos de va­pores, as cristas cin­ti­l