antes, e tão a pru­mo na ce­na, com seus crenéis feu­dais e ve­lu­dos verdes nos om­bros de reis bár­baros, que eles chegam a pare­cer en­can­ta­men­tos de anti­gos génios do hu­mus ter­rae pos­tos de guar­da aos vales onde o silên­cio mo­ra, e ao lu­ar as anti­gas al­mas se as­sem­bleiam. Em­fim a torre. Co­mo fixar-​lhe ago­ra a con­fig­uração ir­reg­ular, acessív­el do la­do de ter­ra por uma es­pé­cie de por­ta de quin­ta com fecharias de bronze, or­na­da de lam­peões, e da ban­da do mar co­mo noutro­ra, por formidáveis pontes levadiças? A por­ta aber­ta, dá-​se por um corre­dor de abóba­da, na es­plana­da do meio, ou da cis­ter­na, e alçan­do a vista, apercebe­mos crava­da no enorme ter­raço uma torre de pe­dra, quadra­da e bron­ca, cor­pos de con­strução mais so­bran­ceiros, a lanter­na do farol por cima, e mais à es­quer­da, escalon­adas, co­mo apoian­do-​se nos con­trafortes graníti­cos da ser­ra, as casamatas tér­reas, a capela, e out­ras de­pendên­cias rasas do balu­arte.

  Out­ão é um ex­em­plar de ar­qui­tec­tura guer­reira de há dois sécu­los, hi­ante à bo­ca da bar­ra, e coas ba­te­rias na posição de var­rer à rasa de água. Tem fun­dações de 1390, época do mestre de Avis, que a as­sen­tara, dizem, no mes­mo lo­cal onde dantes havia umas ruí­nas dum tem­plo de Nep­tuno. Foi su­ces­si­va­mente acres­cen­ta­da por vários grandes reis da casa de Avis, D. Manuel e D. Se­bastião men­cionada­mente, e poucos anos de­pois da Restau­ração, o próprio João IV ali man­dou faz­er con­ser­tos. O es­ta­do de con­ser­vação é per­feito, e a al­ve­nar­ia tão sól­ida, que ten­do os tremores chan­fra­do, de baixo a cima, S. Fil­ipe, ja­mais a Out­ão pud­er­am faz­er a mais pe­que­na es­garçadu­ra. A solidez é tal, que a for­taleza, com seus ter­raços, cárceres, obras cober­tas, mel­hor se diria uma grande pe­dra com bu­ra­cos. A es­plana­da ou platafor­ma que prim­iti­va­mente se­ria uma, de nascente a poente, avançan­do nu­ma es­pé­cie de grande mi­radouro em leque, so­bre o mar, acha-​se ago­ra par­ti­da em três bo­ca­dos, pela in­ter­posição de con­struções for­tu­itas, que foi necessário ajun­tar à me­di­da que a torre caía, de balu­arte de guer­ra, em residên­cia de Verão. O bo­ca­do mais ex­ten­so fi­ca a poente, grande co­mo uma praça, o plaino de la­je­do, cir­cuita­do to­do de para­peito, e com suas guar­itas crivadas de seteiras. Por baixo, cárceres ter­ríveis, sal­itrosos de abóba­da, com água até à cin­ta nas marés, e onde pre­sos políti­cos céle­bres jaz­er­am, Ma­tias de Al­bu­querque en­tre out­ros, e muitos dos veneran­dos lu­ta­dores de trin­ta e qua­tro. Para a es­plana­da do cen­tro ras­gam quase to­das as por­tas das de­pendên­cias su­pe­ri­ores da con­strução, jun­to das quais ul­ti­ma­mente se pôs um guar­da-​ven­to en­vidraça­do, fazen­do ga­le­ria por di­ante da capela, e daqui­lo que do­ra­vante pode chamar-​se o palá­cio re­al -ven­ho a diz­er um pedaço de casama­ta, a torre de menagem, e al­gu­mas casas no­vas que por trás des­ta en­ge­ro­cou um ar­qui­tec­to po­bre e pouco imag­inoso. Quan­do no primeiro ano de reina­do, o Sr. D. Car­los apete­ceu re­sidir no caste­lo coa família, reves­tia-​se dum tol­do bran­co este ter­raço, es­ten­dia-​se uma al­cat­ifa no la­je­do, e fazia-​se da peça hall para as preguiças da cal­ma, ven­do as gaiv­otas subir o rio co ven­to leste, e ou­vin­do a maré fluir e re­fluir con­tra a mu­ral­ha.

  Para a es­tação bal­near do ano seguinte re­quer­eram os reis obras na torre, e uma adap­tação quan­to pos­sív­el gar­ri­da, da vel­ha for­taleza, a volière de grous coroa­dos. Ain­da naque­le tem­po, para se vir por ter­ra de Setúbal a Out­ão, era necessário tomar o car