reiro de Al­bar­quel, trepan­do out­eiros após, e palmil­han­do cal­haus na maré baixa, para chegar à Aju­da, e trepar de­pois aos es­pin­haços da ser­ra, até ao farol vel­ho (ruí­na a pru­mo no ver­tig­inoso roche­do so­bran­ceiro à for­taleza) donde aos tropo-​gal­ho­pos seguida­mente se de­scia, en­tre mil peri­gos, té ao posti­go da ponte levadiça do caste­lo. Por con­se­quên­cia, aos aconche­gos ou preparos do palá­cio ré­gio, ur­gia, co­mo com­ple­men­to, abrir a estra­da no tor­ci­co­lo, de de­spen­hadeiros e montes in­ter­pos­tos, o que tu­do se fez em qua­tro meses, porque o rei tin­ha pres­sa, ga­stan­do-​se na obra aprox­imada­mente trezen­tos con­tos. Foi uma labu­ta a pe­so de es­ter­li­nas, esse capri­cho de rei puin­do a mis­éria do erário es­tanque, nu­ma quadra em que as ren­das públi­cas mal chegam para pa­gar os ju­ros dos em­prés­ti­mos. Já lh­es falei da estra­da de Out­ão, e co­mo artista não nego encómios ao per­son­agem que in­fluiu no seu traça­do. E a mais bela coisa de Setúbal, es­sa aveni­da através de al­can­tis e bosques ribeir­in­hos, so­bre­pu­jante a um gol­fo de águas puras, azul-​fer­rete, e em céu aber­to, en­tre ca­sitas e crenéis tis­na­dos de for­talezas e re­du­tos. Ninguém que faça o pas­seio de Out­ão fi­ca dis­pos­to a maldiz­er a famosa estra­da de pe­dras de oiro, tão es­te­siante go­zo in­funde o per­cor­rê-​la, e tão con­den­sa­da im­pressão se traz dessa pais­agem úni­ca, ete­re­al, onde ca­da coisa prossegue no seu diál­ogo com Deus, sem lhe im­por­tar quem vai pas­san­do.

  Di­rei ago­ra das sump­tu­osi­dades do al­cáçar realen­go, que de propósi­to fui ver com ol­hos ja­cobi­nos, de­ci­di­do a flage­lar os des­perdí­cios da coroa, em fras­es cu­ti­lantes. Com­põem-​se du­ma casa de jan­tar dei­tan­do so­bre a es­plana­da, o par­quet de rosáceas, madeira a três cores, claro, pre­to e cor de avelã -as pare­des e tec­to em caixões e molduras de car­val­ho, com filetes a fo­go, guarnições mais es­curas e pre­garia for­ja­da, aqui e além. No meio do tec­to e muros, pin­tu­ra dec­ora­ti­va em tela, e nos cimos das por­tas um del­ica­do entabla­men­to de es­cul­tura, sain­do airosa­mente da or­na­men­tação co­mum da bois­erie. Es­ta peça es­tá pouco mais ou menos no pavi­men­to das co­zin­has, que são corre­dores de abóba­da ca­ia­da, pavesa­dos de as­fal­to, com cabides de taber­na, e mesas de pin­ho cober­tas de zin­co. Sobe-​se uma es­cad­in­ha de al­ve­nar­ia, larga dum metro, toman­do por labir­in­tos de corre­dores sem luz, por es­tu­car, ca­ia­dos a cor­rer, e a es­paços suan­do pen­duri­cal­hos de sal­itre, ao fim do que se con­segue chegar à sala de re­cepção. É a anti­ga sala no­bre da torre de menagem, quadra­da, al­ta, a abóba­da em tiara, e qua­tro grandes nervuras de pe­dra nascen­do-​lhe dos can­tos, até se en­tre­laçarem no fe­cho, em guisa de florão. Este recin­to é tu­do o que pode haver de menos ma­jestoso, uma só janela de bal­cão, dan­do pró gol­fo, e pela di­re­ita o vão dum ar­co, com ares de capela vazia, sua es­caio­la bara­ta, e so­bre cu­ja vol­ta o ar­qui­tec­to pôs umas ar­mas reais, guardadas por dragões. A dec­oração tam­bém é quase re­les: há uma guarnição de car­val­ho, lisa, emoldu­ran­do lam­béis de ser­apil­heira pin­ta­da a bor­ra-​vin­ho, com caste­los e flo­res-​de-​lis a oiro e pra­ta: as nervuras da abóba­da têm sua sil­va a grisal­ha, e os es­paços en­tre elas sim­ulam céu, com suas nu­vens; em ter­mos que até co­mo dec­oração de teatro es­ta bor­radela de artista era chin­frim! Mais es­cad­in­has, corre­dores par­tidos em com­par­ti­men­tos de restau­rante po­bre, por biom­bos de casquin­ha sem pin­tu­ra, e re­ceben­do luz por 