lu­car­nas de mas­mor­ra. - Eis o toi­lette e o quar­to de dormir, diz-​nos o guar­da. Antes de o abor­dar­mos, uma sala de ban­ho com etr­uscos maca­cos, desmo­bi­la­da, es­cu­ra, e sem torneiras, e al­fim o toi­lette, num Luís XV de Oliveira e Cos­ta, com as­co de boudoir de Dama das Camélias, a es­far­in­har o es­tuque e o oiro pe­los casacos dos vis­itantes. En­tre duas por­tas fi­ca o lavatório, com pe­dra bran­ca, as duas cu­vettes de loiça, em bás­cu­lo au­tomáti­co, e o es­pel­ho aci­ma, com moldu­ra no es­tuque, e por sinal fazen­do a cara tor­ta. Tan­to no tec­to, co­mo nos panos mu­rais, dec­orações a óleo, in­de­centes de cor, de­sen­ho e ar­qui­tec­tura (e to­das as pin­turas de Out­ão partem com es­ta), ver­dadeira ir­risão da mediocridade pro­te­gi­da em detri­men­to de artis­tas ver­dadeiros. O quar­to de dormir é, co­mo a casa de jan­tar, uma ex­ce­lente adap­tação da bois­erie mod­er­na às con­fort­abil­idades sen­ho­ri­ais da residên­cia. Tec­tos, lam­béis, pór­ti­cos, al­mo­fadas, é tu­do sim­ples e dum gos­to sério, re­alça­do de riqueza e de elegân­cia. Aqui, porém, co­mo nas out­ras quadras, veio o pin­tor en­odoar a obra do ebenista, e mar­car de grotesco a har­mo­nia séria que a casa de jan­tar e a câ­mara de dormir po­di­am ter. Em to­do o palá­cio não há um móv­el ou um tapete, e co­mo vêem, as apre­goadas sump­tu­osi­dades de Out­ão não pas­sam do ar­reg­lo que qual­quer re­me­di­ado bur­guês pode­ria ter feito num casarão dos seus an­tepas­sa­dos. Cus­taria is­so oiten­ta vezes mais caro que o ra­zoáv­el? É o ví­cio fun­da­men­tal de to­das as ad­min­is­trações do Es­ta­do, mas releve-​se ao reinante a re­spon­sabil­idade de haver ladrões miú­dos no reino, que bem lhe bas­ta o re­mor­so de pre­gar às vezes grã-​cruzes no peito de al­guns ra­toneiros de­scom­pas­sa­dos.

  Nos varandins do farol levan­to os braços: domi­no a torre e o mar, topeto quase os de­spen­hadeiros do farol vel­ho, e as gaiv­otas cruci­tam, saveiros à pesca, Tróia fron­teira, o mar sem fim, azul no rio, e lá nos con­fins do céu chis­pan­do brasa... De­pois os meus ol­hos baix­am ain­da so­bre as es­planadas da praça, onde, co­mo Ham­let, o es­pec­tro do pai po­dia diz­er ao fil­ho «lem­bra-​te!». Mas levan­to a cabeça an­siosa de ar, coisas bran­cas ao longe, es­puma, ve­las, areais, ilusões e nu­vens pál­idas. Oh, co­mo eu quis­era ser tu­do is­to, sem perder a con­sciên­cia do que sou!

  30 de Março - Man­hã no Tejo.

  En­quan­to o va­por não chega de­ten­ho-​me a abranger amorosa­mente, dos ter­raços da es­tação do Bar­reiro, a mar­in­ha plá­ci­da que a meus ol­hos se de­sen­ro­la, um quase na­da per­di­da nas mus­seli­nas on­deantes da man­hã. O Sol não rompe, há ven­to, e co­mo choveu de noite, um va­go véu de lá­gri­mas sus­pende-​se no es­paço, e ir­ri­ta-​me a res­pi­ração de frígi­das pi­cadas. Daque­la al­tura da ri­ba, a ex­pan­são que faz o Tejo, dá-​me uma sen­sação de taça cheia, tão fecha­do o cir­cuito das suas mar­gens…No primeiro plano, à di­re­ita, uma lín­gua de areia con­tém moin­hos e casarel­hos bran­cos, muros de quin­ta, oliveiras e eu­calip­tos tristes que se acur­vam a saudar a lu­fa­da húmi­da da au­ro­ra, vin­da da bar­ra. Pela es­quer­da é uma bar­reira br­us­ca de ter­ra ver­mel­ha, al­tea­da, chan­fra­da, co­mi­da dos as­saltos das cheias, racha­da da água, com ca­bel­ugens de ma­to e pin­heiros anões dum verde-​bronze. As casas pare­cem su­ces­si­va­mente mais hu­mildes, à me­di­da que se dis­tan­ci­am pe­los planos além da per­spec­ti­va -são quadrad­in­hos de cal­iça, com pon­tos ne­gros de por­tas e janelas, tel­ha­dos ne­gros, pal­içadas de quin­tais e de ar­rib­ana