s; de­pois além, fazen­do fun­do, no pon­to onde o co­tovelo do rio põe em rele­vo os montes de Cacil­has, a casaria com­pli­ca-​se em povoações miú­das, com chan­fraduras de cam­in­hos, mi­rantes, quin­tas, de­dos de cam­panários e cham­inés de fábri­cas apon­tan­do o côn­ca­vo da cúpu­la as­tral, que as névoas lambem, semel­hante a uma fu­mara­da de turíbu­los. Para trás os pin­heirais aqui­etam-​se, ne­gros ain­da duns restos da noite chu­vis­cosa; uma grande mu­ral­ha de nu­vem ve­da a eclosão do Sol, co­mo um pano de teatro, por trás do qual se es­tá preparan­do uma apo­teose. O va­por da car­reira dá sinal, e a primeira es­cuma es­ca­choa-​lhe das ro­das, com um es­car­ro de fu­mista, no in­stante em que rente do cais uma fra­ga­ta pas­sa, com uma es­pé­cie de deus mar­in­ho à ré, puxan­do a vela, en­quan­to o resto da com­pan­ha desvia com arpões o costa­do da pe­sa­da traqui­tana, e o cão de bor­do agi­ta a cau­da aos f1avores da caldeira­da que no con­vés re­fo­ga ale­gre­mente, so­bre um lamaréu jovial de pin­ho e de urze.

  Cir­cun­screve­mos a pon­ta dos moin­hos, e a en­sea­da alarga-​se, a toal­ha líqui­da des­do­bra-​se -a água mal se en­ruga, uma placidez de es­pel­ho re­flecte os mas­tros das bar­caças e ain­da por al­guns in­stantes a fra­ga­ta nos le­va em­pós de si o ol­har artista, que lhe apre­cia a man­cha, co­mo um mo­men­to da luz a es­cor­rer de sen­sação. Na ré, cur­van­do-​se a ca­da in­stante aos movi­men­tos da cor­da que põe em riste a vela, a figu­ra colos­sal do ra­paz é lin­da de en­er­gia, e a lentidão da manobra, con­stante du­ma série de movi­men­tos anál­ogos de du­ração e de am­pli­tude, parece fei­ta de ver­sos mi­ma­dos, cu­jo mag­ní­fi­co rit­mo enche du­ma ter­nu­ra físi­ca a na­tureza. Pouco a pouco, a luz trans­mu­ta-​se, cam­bi­am-​se no ar tonal­idades que a fugi­da das névoas ren­ova e sub­sti­tui com uma in­stan­tânea ag­ili­dade, e que mer­cê dela, tiram dessa mes­ma pais­agem cen­te­nas de clichés to­dos difer­entes, qual mais va­porosa­mente irisa­do de es­tro trági­co. Já as mar­gens do rio se afas­tam, ver­dadeira­mente ven­ci­das pela força de ex­pan­são do vol­ume de água, que vai de rio a oceano, e abar­ca no mar da pal­ha uma dis­tân­cia in­tér­mi­na e ra­diosa. À es­quer­da, os por­menores da ri­ba acen­tu­am-​se e de­finem-​se, grupo a grupo, e começam-​se apon­tar povoações, Ar­rentela, Seix­al, Gin­jal, Cacil­has, Al­ma­da a cav­aleiro: vêem-​se pré­dios, pon­tais, baías do taman­ho de ban­deiras, um formil­har de man­chas claras em fun­dos de pin­hal e de olive­do, onde um ou out­ro moin­ho move cir­cu­lar­mente as suas ve­las cristãs, em pé­ta­las de crucífera, guin­chan­do ao ven­to, co­mo os bibes nos lavra­dios, à caça de min­ho­cas. Pela di­re­ita, porém, a margem foge, acacha­pa-​se, hu­mil­ha-​se, es­quece, e é ver­dadeira­mente colos­sal a mar­in­ha que sob o meu ol­har se de­sen­ro­la! No fun­do do poente, a névoa sem­pre, névoa cor de péro­la, f1uidís­si­ma, ar visív­el, que nasce da bar­ra co­mo o nim­bo de não sei que formidáv­el as­cen­são, e tol­da a cidade, as ser­ras da foz do rio, os arra­baldes, preparan­do o fi­nal de ac­to feéri­co que há-​de ser a nos­sa chega­da à vista de Lis­boa. Ven­ho à ré do va­por lançar um úl­ti­mo adeus às per­spec­ti­vas que fi­cam, e ve­jo a nascente o pano de nu­vens baixar calig­inosa­mente ao rés das ter­ras, fu­gir para o in­te­ri­or do país, prenche de chu­va, co­mo um odre bené­fi­co que Deus tivesse vin­do encher ao rio, para o es­par­gir de­pois so­bre as cearas e vin­has do Alen­te­jo. São sete e meia, os primeiros bi­cos da coroa so­lar queimam no céu, doiran­do as fím­brias dos pin­hais e