 a faixa de névoas que por cima de mim vai mi­gran­do lenta­mente para o Sul – tem­po ex­pres­si­vo, co­mo os ribeir­in­hos dizem -or­feão mati­nal, cu­ja mono­to­nia enorme de­ter­mi­na uma as­sunção de son­hos para o azul, para o azul que o meu es­píri­to atrav­es­sa, ai de mim! ral­ado de de­boches, à procu­ra do amor defini­ti­vo!

  «…Os primeiros bi­cos da coroa queimam no céu». Mar­chamos a va­por, sente-​se por baixo a água in­sondáv­el, cheia de penum­bras verdes e de sepul­cros mis­te­riosos, in­crus­ta­dos de madré­po­ras, com gri­nal­das de líquenes, e ro­marias de peix­es ou­vin­do derre­dor dos cas­cos sub­mer­sos, quo­tid­ianas mis­sas de fi­na­dos. Primeiro é uma cor uni­da, opa­co chum­bo, que lenta­mente pas­sa a hidrargírio, a azul-​ven­tre-​de-​peixe, sem ru­gas, plá­ci­do de haus­to, e com es­sa lan­guidez dum ser que se abor­rece e flana no seu leito, à procu­ra dum cen­tro his­terógeno que faz­er vi­brar para sair daque­la las­sidão. Pro­gres­si­va­mente de­pois a luz as­cende, e começa uma sin­fo­nia con­sti­tu­cional de azul e bran­co, que varre o resto dos seus es­pec­tros noc­turnos. - Tem­po claro, mar claro, luz cir­cu­lante, cir­cun­dante, en­vol­vente, fun­dente, com uma pre­ocu­pação monocór­dia de tornar os ob­jec­tos lu­mi­nosos, e de fundir to­da a mar­in­ha nu­ma agua­da de azul ima­te­ri­al. Sim, a cri­ação é mais monó­tona do que vari­ada. Bar­bey de Au­re­vil­ly tin­ha razão – Deus é Ví­tor Hugo, só dum la­do.

  Oh água sem ru­gas, per­fí­dia dos la­gos plá­ci­dos, vi­da líqui­da, que de aparên­cia imó­bil, con­tu­do cor­reis ver­tig­inosa co­mo a idade eis a min­ha al­ma que adormece das suas in­qui­etações, ven­do-​vos dormir as­sim tão traiçoeira, en­quan­to as nu­vens fo­gem, e a brisa do Sul ros­na nas bailadeiras, in­quisidor maldito, o de pro­fundis do naufrá­gio! Var­rei, tágides min­has, os mon­stros espon­josos do agua­ceiro – va­gas, trazei nas vos­sas lápi­des os funére­os in pace dos meus ir­mãos que a bor­ras­ca sorveu nu­ma ho­ra de ran­cor, e se a vi­da do mar tem voz, es­sa voz me fale a min­ha lín­gua, para que eu nela re­con­heça o re­mem­ber dos an­ces­trais de quem herdei es­ta angús­tia ter­rív­el do au-​delà! 

  Mar­chamos a vá por; em pleno mar da pal­ha, há ven­to; a va­ga porém, dul­cís­si­ma, co­mo um semicú­pio morno, faz a perder de vista uma al­cat­ifa de fel­pa, por onde o bar­co pisa ale­gre­mente. A vastidão do hor­izonte é mar­avil­hosa, e com de­tal­hes supre­mos de transparên­cia mati­nal. Al­guns bar­cos ao longe, de vela oblíqua, ful­vos na luz, pare­cem, nas en­volvên­cias da bru­ma, pos­tos de propósi­to para faz­erem bater o coração dum col­orista. Mais longe, para além, ligeiras névoas ave­lu­dam Lis­boa e as cordil­heiras graves dessa margem, mostran­do-​as co­mo uma sucessão de ter­raços so­bre o Tejo, não deixan­do porém ver por de­tal­he os bair­ros da cidade, ex­ageran­do as di­men­sões da imen­sa casaria, e en­fim dan­do à reti­na uma tal sen­si­bil­idade, que não há pon­to que ela não aperce­ba, nem pa­pi­la ner­vosa do cor­po que ela para as­sim diz­er não torne em órgão de visão. As­sim, mau gra­do a sua mag­nificên­cia e largu­ra panorâmi­ca, es­sa mar­in­ha guar­da sem­pre uma ni­tidez de vin­heta a tal­he-​doce, é um gol­fo de mág­ica, vola­ti­za­do de poeiras de oiro, e onde só fal­tam sereias e tritões, em­purran­do a con­cha de Nep­tuno.

  …com o Sol al­to, o céu fi­ca var­ri­do dos agua­ceiros de pas­sagem, e por to­do o plaino en­tão os val­ores da luz tomam uma meigu­ice ado­les­cente, uma sub­til­idade ir­re­al va­por­iza­da, bran­co so­bre péro­la, com efeitos róseos na fran­ja das bru­mas longín­quas, e