Title: O Viúvo
Author: David Mourão-Ferreira
CreationDate: Wed Jul 22 15:38:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Feb 25 14:20:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  O Viú­vo

  David Mourão-​Fer­reira

  O con­to O Viú­vo, aqui pub­li­ca­do, foi ex­traí­do do livro Os Amantes e Out­ros Con­tos, da au­to­ria de David Mourão-​Fer­reira e ed­ita­do pela Ed­ito­ri­al Pre­sença, que gen­til­mente au­tor­izaram a sua pub­li­cação.

  © 1996, David Mourão-​Fer­reira e Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8127-45-6

  Lis­boa, Agos­to de 1996

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

  ***

  O VIÚ­VO

  Voltou a to­car a cam­painha. Des­ta vez, já um toque in­sis­tente, mal-​hu­mora­do, em dois tem­pos con­sec­utivos: de chama­da, de protesto. Re­cu­ou três pas­sos, a son­dar o efeito: na­da! Nem uma rés­tia de luz nas janelas cer­radas... Tu­do es­curo por den­tro.

  Num ar­repio, er­gueu a go­la do so­bre­tu­do. De­pois, ro­dan­do ligeira­mente a cabeça e os om­bros, ol­hou de no­vo para trás: naque­la di­recção adi­vin­ha­va-​se, por en­tre as pre­gas húmi­das da noite, o dor­so ex­ten­so da pra­ia; mais adi­ante, em rápi­dos ful­go­res, a lin­ha de es­puma da reben­tação. Con­tin­ua­mente, ressoavam as on­das.

  Tin­ha deix­ado ace­sos os faróis do car­ro, a per­scrutarem a frontaria do ho­tel. Mas vin­ha de mais longe do meio do mar -a luz in­ter­mi­tente que por in­stantes ban­ha­va o ed­ifí­cio, que lhe aclar­ava, a es­paços, o ros­to im­pen­etráv­el. Do meio do mar? De­via ser o farol das Berlen­gas. 

  Retro­cedeu, a cam­in­ho da por­ta; e prepar­ava-​se para to­car uma vez mais, quan­do en­fim dis­tin­guiu, através do vidro fos­co do posti­go, uma ténue clar­idade. Lo­go a seguir, um ru­mor de pas­sos, um cor­rer de fe­chos. E dois ol­hos de sono: o porteiro. 

  -Boa noite -mur­murou Adri­ano. -Tele­fonei on­tem a reser­var um quar­to. 

  Den­tro, no pe­queno vestíbu­lo, cheira­va mais a mar do que lá fo­ra. Dir-​se-​ia mes­mo ter-​se con­ser­va­do (em­bo­ra a pon­to de gan­har bafio) um pouco do hál­ito do Verão... Do Verão? De quan­tos verões? Talvez hou­vesse al­gum vestí­gio, ain­da, do úl­ti­mo que ali pas­sara. 

  -Sim, es­tá no car­ro. - (O porteiro per­gun­ta­va-​lhe se trazia bagagem.) -Aqui tem a chave. 

  Pelas pare­des, as mes­mas es­tam­pas: ma­pas anti­gos e gravuras de caça. Mas o bal­cão da por­taria tin­ha mu­da­do de lu­gar: dezas­sete, de­zoito anos antes, era lo­go à en­tra­da, do la­do di­re­ito; pre­sen­te­mente, ocu­pa­va a parede do fun­do, quase à il­har­ga da es­ca­da que con­duzia ao se­gun­do piso. A meio da es­ca­da, uma lâm­pa­da mor­tiça. Ah! as luzes do car­ro... Voltou atrás, ao um­bral da por­ta en­tre­aber­ta, para re­comen­dar ao porteiro que as apa­gasse.

  E que­dou-​se um in­stante no pa­tim, so­le­tran­do, no es­curo, o ruí­do das on­das. Para a es­quer­da, quase na lom­ba da estra­da, rev­ela­va-​se, a ca­da pas­sagem do fa­cho das Berlen­gas, uma em­pe­na de pe­dra: era a casa dos Ban­deiras. Con­tin­ua­va a ser a habitação mais próx­ima do ho­tel. E a mais anti­ga, tam­bém, de quan­tas ex­is­ti­am em re­dor.

  Re­tor­na­va o porteiro, car­regan­do a mala. Reen­traram no vestíbu­lo. O homen­zin­ho, es­tremunhado, trata­va de cor­rer os fe­chos da por­ta. Adri­ano começou, pau­sada­mente, a descalçar as lu­vas. Já não sabia, ao cer­to, se er­am aque­las as lu­vas que a Paula lhe ofer­ecera. 

  A de­speito da por­ta fecha­da, não ces­sara, por in­teiro, o ruí­do do mar: ape­nas se en­rola­va, mais con­fu­so co­mo den­tro de um búzio de ci­men­to. 

  O porteiro, que en­tre­tan­to se es­gueirara para trás do bal­cão, ap