­re­sen­ta­va-​lhe, ago­ra, o livro de reg­is­to dos hós­pedes; e ros­na­va, pe­ga­joso de sono:

  -Se vos­sa ex­celên­cia se quer dar ao in­có­mo­do... 

  -Mui­ta gente? -indagou Adri­ano, pe­gan­do na cane­ta. 

  -Nem por is­so... É sem­pre uma época muito fra­ca. 

  Adri­ano ex­am­inou a fol­ha em que o livro se en­con­tra­va aber­to: com a mes­ma da­ta de 23, fig­uravam ape­nas, ao al­to da pági­na, dois nomes es­trangeiros. In­gle­ses, prove­nientes de Bris­tol. Mari­do e mul­her, ao que pare­cia. De qual­quer mo­do, dois nomes es­critos por uma só pes­soa, re­unidos na mes­ma caligrafia ráp­ida e se­gu­ra, am­para­ndo-​se mu­tu­amente, for­man­do blo­co. 

  Prin­ci­pi­ou a preencher a lin­ha que o porteiro lhe des­ig­nara: nome, idade, mora­da, profis­são. Mas, de súbito, sus­penden­do a cane­ta no ar: 

  -Se­ria pos­sív­el ar­ran­jar-​me uma be­bi­da? Um whisky, por ex­em­plo... 

  -Ago­ra? -es­pan­tou-​se o homem. -Bem...Só se eu for acor­dar o chefe de mesa...-Via-​se que a per­spec­ti­va o in­qui­eta­va. 

  -En­tão, deixe lá. Não vale a pe­na. 

  Mordis­cou, de leve, a tam­pa da cane­ta. E, na col­una re­spei­tante ao es­ta­do civ­il, va­garosa­mente es­creveu a palavra «viú­vo».

  No dia seguinte, ao sair do quar­to, de­pois do pe­queno-​al­moço, en­con­trou o porteiro a limpar-​lhe o au­tomóv­el. 

  -O sen­hor doutor de­sculpe, mas parece-​me que o car­rin­ho es­ta­va pre­cisa­do…

  Ago­ra, per­to do meio-​dia, era out­ro homem o porteiro: bem dis­pos­to, jovial, talvez um bo­cad­in­ho adu­lador, sem na­da de co­mum, de qual­quer for­ma, com aque­le pas­pal­ho pe­sadão que na véspera toscane­ja­va, sob o ca­puz do sono. Tam­bém Adri­ano se sen­tia mais leve: não que tivesse dormi­do muito, nem muito pro­fun­da­mente; mas sou­bera-​lhe bem a es­curidão do quar­to, com grossas por­tadas de madeira a vedarem to­da a clar­idade, a deixarem fil­trar ape­nas o ruí­do das on­das... Era co­mo se hou­vesse pas­sa­do a noite no bo­jo de um navio. De en­tre a es­curidão adi­vin­hara, no en­tan­to, que o tem­po tin­ha mel­ho­ra­do.

  -Nem parece que es­ta­mos em Dezem­bro! -ex­cla­ma­va o porteiro. -Muito menos na véspera de Na­tal... Lá para Janeiro, para os fins de Janeiro, é que cos­tu­ma haver uns dias as­sim...

  Es­ta­va frio, ape­sar de tu­do. Mas era um frio salu­tar. E o Sol, de­pois de dis­si­par a hu­mi­dade, se de­si­sti­ra, por ago­ra, de aque­cer o mun­do, teima­va em suave­mente ilu­miná-​lo. Na pra­ia, que lo­go adi­ante se es­ten­dia, nas dunas, que para o fun­do se el­evavam, a areia começara a gan­har um tom açafroa­do -o mes­mo que ful­gu­ra­va, mais per­to, na em­pe­na de pe­dra da casa dos Ban­deiras. Apon­tan­do-​a, Adri­ano per­gun­tou ao porteiro: 

  -Já cá es­tá a Sen­ho­ra Dona Ri­ta? 

  Mas foi pre­ciso repe­tir a per­gun­ta, porque o homen­zin­ho não o es­per­ara de­cer­to fa­mil­iar­iza­do com habi­tantes das re­dondezas.

  -Es­tá sim, sen­hor doutor -re­spon­deu, por fim. A Sen­ho­ra Dona Ri­ta vive cá to­do o ano. 

  -To­do o ano?! 

  -Pois. E é muito raro sair de casa des­de que mor­reu o sen­hor gen­er­al. 

  Adri­ano começa­va a com­preen­der: 

  -Eu que­ria diz­er a fil­ha... -es­clare­ceu, sor­rindo. 

  -Ah! a meni­na Ri­ta ... -Os ol­hin­hos do porteiro bril­haram, cúm­plices: -O sen­hor doutor con­hece en­tão a meni­na Ri­ta? 

  -Con­heço, sim -re­spon­deu Adri­ano, com se­cu­ra. Não lhe agradara a ex­pressão do homem. -Con­heço to­da a família da Sen­ho­ra Dona Ri­ta. So­mos vel­hos ami­gos. E achou-​se ridícu­lo, de tão en­fáti­co e so­lene. Paciên­cia! 

  -Ah! não sabia ... -mur­murou o porteiro, em voz sum­ida, co­mo que a de