scul­par-​se; e aga­chou-​se à beira do au­tomóv­el, para limpar, com es­mero, o próprio re­bor­do do guar­da-​lama. 

  Adri­ano sente-​se, de súbito, vaga­mente nau­se­ado. Rodeia o car­ro e fi­ca de costas para o homem, ol­han­do a pra­ia, as dunas e o mar. De que mis­tu­ra de episó­dios, reais ou ir­reais, se fo­ra crian­do, tam­bém ali, a re­speito da Ri­ta, a len­da que a en­volve e que a persegue...? Não se­ri­am, com certeza, muito di­ver­sos na es­sên­cia, ape­nas na dosagem, daque­les que em Lis­boa se con­tavam e que fazi­am dela, mes­mo em Lis­boa, uma figu­ra quase fab­ulosa. 

  Im­per­cep­tivel­mente, aprox­imara-​se o porteiro. Com a maior des­façatez (era mel­hor as­sim, ape­sar de tu­do), trata­va de re­spon­der à per­gun­ta que ficara em sus­pen­so: 

  -Bem... Que eu sai­ba... Que eu sai­ba ain­da não chegou. Mas deve es­tar por aí a apare­cer. Nes­tas al­turas nun­ca fal­ta! Vem sem­pre pas­sar o Na­tal com a mãe. Nun­ca fal­ta, lá is­so... Muito ami­ga da mãe! 

  -Eu sei, eu sei. 

  Só não sabia se havia de rir ou de se in­dig­nar com a sabu­jice do homen­zin­ho. Sem mais palavras, dis­parou pela estra­da aci­ma. Apete­cia-​lhe um pas­seio a pé, um bom pas­seio até à ho­ra do al­moço. 

  No­tou, de re­lance, que es­tavam fechadas to­das as janelas em casa dos Ban­deiras. 

  Pare­ceu-​lhe que tin­ham aber­to, ex­pres­sa­mente para ele, o salão de jan­tar. A boa von­tade fo­ra ao pon­to de colo­carem toal­has em to­das as mesas, em­bo­ra so­mente seis ou sete (as que fi­cavam mais per­to das janelas) ap­re­sen­tassem o com­ple­to equipa­men­to de pratos, de co­pos, de tal­heres. Mas não con­seguiam, mes­mo as­sim, cri­ar a ilusão de aguardarem mais gente. Nem do casal in­glês havia ras­tro: ou já tin­ham par­tido, ou não tomavam as refeições no ho­tel. Ao al­moço, pe­lo menos, fo­ra Adri­ano o úni­co hós­pede. 

  Es­per­ava ago­ra, no bar, que lhe trouxessem o café.

  E foi o próprio chefe de mesa quem o trouxe. Aproveitou, en­tão, para pedir um con­haque ligeira­mente aque­ci­do. E o chefe de mesa fez questão em ser tam­bém ele a servir-​lho. Já du­rante o al­moço, al­iás, o chefe de mesa o rodeara de atenções. Mas pa­cien­tara de­cer­to até esse mo­men­to para diz­er en­fim a Adri­ano que lo­go de en­tra­da o tin­ha re­con­heci­do: 

  -Vos­sa ex­celên­cia é que cer­ta­mente já não se recor­da de mim. Era eu, nes­sa al­tura, o em­pre­ga­do aqui do bar... 

  -Sim, sim... Ten­ho uma ideia... -mur­murou Adri­ano, sem con­vicção. 

  -É prováv­el que não se recorde... Já lá vão tan­tos anos! -E ro­da­va o copo de balão so­bre a chama da lam­pa­ri­na. -Para cima de vinte, com certeza... Desse tem­po (imag­ine vos­sa ex­celên­cia!) sou eu o úni­co, em to­do o pes­soal do ho­tel... Mas lem­bro-​me muito bem de vos­sa ex­celên­cia, da mãe e do pai de vos­sa ex­celên­cia... Du­rante a guer­ra (parece que os es­tou a ver!), o pai de vos­sa ex­celên­cia e o sen­hor gen­er­al Ban­deira (nes­sa al­tura, era ele coro­nel, se não me engano) fi­cavam aqui, até al­tas ho­ras, a ou­vir as notí­cias pela tele­fo­nia... E o «grupo» de vos­sa ex­celên­cia! Tin­ham um grupo tão an­ima­do…Er­am to­dos tão di­ver­tidos! 

  Cur­vou-​se so­bre a mesa, apa­gan­do, num so­pro, a chama da lam­pa­ri­na. 

  -Es­pere! Es­tou-​me a lem­brar... Já me lem­bro de si! E até do seu nome... Al­ber­to, não é? 

  -Adal­ber­to... -cor­rigiu o out­ro, sor­rindo. 

  -Is­so: Adal­ber­to. Tem graça! Ago­ra es­tou a recor­dar-​me per­feita­mente... A paciên­cia que você tin­ha para nos at­urar!... 

  -Paciên­cia? Não di­ga is­so, sen­hor doutor! -Treme-​lhe a mão ligeira­mente, ao es­ten­der o copo a Adri­ano. Nun­ca mais hou