ve, de­pois, um grupo co­mo aque­le... Talvez vos­sa ex­celên­cia não acred­ite -e baixa a voz, emo­ciona­do –, mas, quan­do me pon­ho a pen­sar nos meus tem­pos de ra­paz, lem­bro-​me mais desse grupo... do que pro­pri­amente de mim, de co­mo eu era, ou até mes­mo dos ami­gos que eu tin­ha... -De­pois, endi­re­itan­do-​se: -Vos­sa ex­celên­cia de­sculpe... Nem eu perce­bo porque es­tou para aqui a diz­er es­tas coisas. 

  E Adri­ano sente von­tade de re­spon­der-​lhe, tam­bém em voz baixa, quase em sur­di­na: «Porque é Na­tal…» Mas, em vez dis­so, bebe um tra­go de con­haque e limi­ta-​se a co­men­tar: 

  -Se não me engano, nós de­víamos ser... De­ve­mos ser to­dos da mes­ma idade. 

  -Acho que sim, sen­hor doutor. Eu vou faz­er quarenta. 

  -Tam­bém eu. 

  E fi­cam am­bos em silên­cio. Vol­ta a ou­vir-​se, sur­da­mente, o ruí­do das on­das. 

  -Vos­sa ex­celên­cia dá-​me li­cença que me re­tire? Acabou de ar­ru­mar, so­bre a ban­de­ja, a cháve­na, a lam­pa­ri­na, a gar­rafa de con­haque. 

  -Faça fa­vor. 

  Adri­ano pen­sa, por um in­stante, que deve diz­er-​lhe mais al­gu­mas palavras: que gos­tou de o reen­con­trar, que teve gos­to em o re­con­hecer…Mas, disc­re­ta­mente, já o out­ro saiu. 

  A sala do bar tem uma úni­ca janela, emoldu­ra­da de pe­sadas sane­fas. Para lá das vidraças amon­toam-​se, de­cer­to so­bre o mar, umas nu­vens de fel­tro alaran­ja­do. Da poltrona onde se afun­dou, de costas para a por­ta, é que a penum­bra parece crescer, com lar­gos braços de flor carnívo­ra. Bas­taria talvez ter repeti­do, fa­mil­iar­mente, o nome do out­ro; nem se­ria pre­ciso ter di­to mais na­da. 

  E há um ano? Pre­cisa­mente há um ano, mas um pouco mais tarde (já en­tão as ras­gadas janelas do bar do ho­tel se afogueavam, por en­tre a chu­va do crepús­cu­lo, com o revér­bero das luzes de Lis­boa...), há um ano, pre­cisa­mente há um ano, tu­do teria si­do por­ven­tu­ra difer­ente -se hou­vesse chega­do a mur­mu­rar, a sus­sur­rar, a ar­remes­sar, de qual­quer mo­do, o nome da Paula. 

  Mas eis que nesse in­stante, atrás das suas costas, co­mo se a penum­bra, de re­pente, gan­has­se pés e per­nas, afir­ma-​se, pro­gride, do felpo da al­cat­ifa, um leve ru­mor de pas­sos. E duas mãos, de­va­gar, pousam-​lhe nos om­bros. 

  Es­per­ava tu­do, con­fes­so... menos que me apare­cess­es des­ta maneira. 

  -É para que saibas, meu queri­do... Es­tou muito mod­ifi­ca­da. 

  -E ca­da vez mais boni­ta! 

  -Que bom! Di­to por ti, nem parece men­ti­ra. 

  -Não é. 

  -Mel­hor ain­da! Vês?... Já es­tou con­ven­ci­da. Con­tin­uas a ter o seg­re­do de con­vencer to­da a gente. 

  -Nem to­da.

  -Mas fi­cas­te ad­mi­ra­do?...Não me di­gas que prefe­rias que eu tivesse apare­ci­do co­mo dantes... num pé-​de-​ven­to! 

  -O im­por­tante é que ten­has apare­ci­do. 

  -Tive lo­go um pal­pite que eras tu. E ol­ha que não era muito fá­cil... O paler­ma do porteiro deu-​me umas in­di­cações tão bar­al­hadas que nem fazes ideia! Ad­vo­ga­do, de Lis­boa, com uma ci­ca­triz na cara (fi­ca-​te muito bem a ci­ca­triz, des­cansa!), a per­gun­tar por mim... de­vias ser tu! Mas de mis­tu­ra com tu­do is­to... que­ria con­vencer-​me, à vi­va força, que eras viú­vo! Viú­vo, imag­ina!... 

  -Quem sabe?... 

  -Deixa-​te de fi­tas. Ain­da an­teon­tem vi a El­sa. 

  -E quem te garante que ela não mor­reu? 

  -De­pois dis­so?... 

  -Ou antes. 

  -Con­tin­uas a ser um grande pon­to. 

  -Pois ol­ha: es­tou a falar a sério. Ten­ho a im­pressão de que mor­reram, em Lis­boa, to­das as pes­soas min­has con­heci­das. Por is­so mes­mo vim até aqui... à procu­ra do úni­co ser vi­vo que con­heço. 

  -Sou eu?! 

  -