s.

  -Oh! queri­do ... Não sei co­mo agrade­cer-​te... É o que eu di­go: con­tin­uas com o tal seg­re­do... Mas ape­sar de tu­do acho-​te difer­ente. 

  -É nat­ural... E se nos sen­tásse­mos? 

  -Sen­te­mo-​nos. 

  «Não era as­sim que ela dantes se sen­ta­va», pen­sou Adri­ano. Mas os joel­hos con­tin­uavam a ir­ra­di­ar a luz in­qui­etante de out­ros tem­pos. 

  -Con­ta, con­ta... Es­tou in­ter­es­sadís­si­ma! Is­to parece o re­gres­so do fil­ho pródi­go... Vi­este soz­in­ho? 

  -O mais só que é pos­sív­el. 

  -E a El­sa? 

  -Recol­heu ao jazi­go de família. 

  -Ou se­ja... 

  -... a casa dos meus sogros, ev­iden­te­mente. É o grande re­cur­so dos en­ter­ros de primeira classe. 

  -Abençoadas se­jam as famílias! 

  -Abençoadas se­jam! E a propósi­to: ain­da não te per­gun­tei pela tua mãe... 

  -Na for­ma do cos­tume: san­ta, si­len­ciosa e sur­da, co­mo dizia o meu pai. 

  -E tu? Vi­este soz­in­ha? Ou troux­este al­gum apaixon­ado no teu ras­to?

  -Não! Que ideia! Estes dias fes­tivos são sagra­dos...Não há se­quer apaixon­ados disponíveis. De re­pente, de­sco­brem que têm pai, que têm mãe, uma ir­mã, uns so­brin­hos... com quem não po­dem deixar de pas­sar o Na­tal. 

  -Às vezes até de­sco­brem que têm mul­her. 

  -Is­so não sei, meu queri­do. Fe­liz­mente, sou muito pouco ver­sa­da no género con­ju­gal. 

  -Por amor de Deus! Não es­tou a in­sin­uar coisa nen­hu­ma. Eu fala­va de mim. De mim... noutros tem­pos. 

  -Ah! Se bem en­ten­do, só ago­ra chegaste à con­clusão de que podes es­tar disponív­el... 

  -Ex­ac­ta­mente. E já é tarde. 

  -Nun­ca se sabe! Tens de me con­tar tu­do is­so em por­menor. -Ol­han­do o reló­gio: -Mas ago­ra não. Prometi levar a min­ha mãe a Óbidos. A Óbidos, imag­ina!... Vim só aqui ao ho­tel para tele­fonar. Mal sabia eu... 

  -... que me vin­has en­con­trar viú­vo! 

  -Muito gostas tu de ser fiteiro! -ex­clam­ou ela, rindo. E pôs-​se de pé, num salto. -Não, de­scul­pa, não é bem is­so... Tu gostas é de faz­er a fi­ta de ser fiteiro. 

  -Não perce­bo... -mur­murou ele, lev­an­tan­do-​se tam­bém.

  -Percebes, sim. Ou­ve: queres jan­tar lá em casa? Não, es­pera... É mel­hor apare­ceres de­pois do jan­tar, para não faz­er con­fusão à min­ha mãe. E as­sim pas­samos jun­tos a meia-​noite. Vai ser o Na­tal dos de­sam­para­dos... Que dizes? 

  -Acho óp­ti­mo. Es­per­ava jus­ta­mente que me con­vi­dass­es. 

  Acom­pan­hou-​a de­pois, até à por­ta do ho­tel. A tarde de­cli­na­va: já o sol se in­fil­tra­va por en­tre a bar­ragem de nu­vens do poente; e em­palide­cia, friorenta, a areia das dunas. Jun­to da casa dos Ban­deiras, per­mane­cia ago­ra esta­ciona­do um au­tomóv­el de sport, cor de fo­go. 

  -Com­praste out­ro car­ro? -per­gun­tou Adri­ano. 

  -Há que tem­pos! Em Out­ubro do ano pas­sa­do. 

  -Não sabia... 

  -Is­so só pro­va, meu queri­do, que não nos víamos há uma eternidade... Es­pera! A úl­ti­ma vez, acho eu, foi pre­cisa­mente no Verão desse ano. 

  -Foi. No Es­to­ril. 

  -É ver­dade! Que é feito daque­la jovem que es­ta­va con­ti­go? Co­mo é que ela se chama? Vocês, se não me engano, an­davam muito in love…

  -Chama­va-​se Paula. 

  -Ah! Acabou? É en­tão is­so?... 

  -Acabou. Ela mor­reu há quase um ano, num de­sas­tre de au­tomóv­el. 

  -Palavra? 

  -Jus­ta­mente na véspera de Ano No­vo. 

  -Oh! Adri­ano... De­scul­pa! Ago­ra ve­jo per­feita­mente que não es­tás a brin­car. 

  -Até lo­go, Ri­ta! -E voltou para den­tro do ho­tel. 

  Só fal­tavam três ho­ras e meia para o jan­tar. Aproveitou o tem­po o mel­hor pos­sív­el: be­beu out­ro con­haque, três whiskies, leu dois jor­nais, uma re­vista 