e o começo de um ro­mance poli­cial. Ah!... E con­ver­sou com o Adal­ber­to: recor­daram, um por um, os com­po­nentes do grupo de há vinte anos. («A meni­na Ri­ta era a mais en­dia­bra­da ... Mas uma jóia, uma jóia!») Is­to, ev­iden­te­mente, de­pois do se­gun­do whisky; ou, com maior pre­cisão, já no de­cur­so do ter­ceiro.

  To­cou, de leve, a cam­painha. E o fa­cho das Berlen­gas, ao pas­sar nesse in­stante, pare­ceu er­guê-​lo, er­guer a casa. A noite es­ta­va menos húmi­da que na véspera; mas muito mais fria. Pe­sa­va-​lhe a roupa, sem to­davia o aque­cer; era co­mo se tivesse, em vez do so­bre­tu­do, um capote de pe­dra so­bre os om­bros. 

  Veio abrir uma cri­ada, novi­ta e feia, as­sara­pan­ta­da co­mo uma bor­bo­le­ta. Na sala de en­tra­da so­bres­saía, ao cen­tro, um calorífero de petróleo, que a ra­pari­ga rodeou uma, duas vezes, num es­voaçar as­sus­tadiço, chamus­can­do quase as asas do aven­tal. Por fim sum­iu-​se, nu­ma bal­bú­cie de sons in­in­teligíveis. De­via ser grande acon­tec­imen­to um homem ali em casa. 

  De­va­gar, me­teu as lu­vas no bol­so do so­bre­tu­do. To­do o mo­bil­iário, em re­dor, teste­munha­va larga­mente a pas­sagem do fale­ci­do gen­er­al pelas par­agens da Ín­dia e de Macau: biom­bos, mesin­has, cofres, um con­ta­dor de la­ca. Mas a atenção de Adri­ano con­cen­trou-​se, ape­nas, num por­menor que na­da tin­ha a ver com o Ori­ente: era o re­tra­to de uma ra­parigu­in­ha de ol­hos vivos, de ca­be­los com­pri­dos, de sem­blante ao mes­mo tem­po aga­iata­do e grave, com o pescoço del­ga­do a emer­gir de en­tre fol­hos de or­gan­za... Tin­ham-​na fix­ado nu­ma pose de to­cante mau gos­to, a se­gu­rar nos de­dos um botão de rosa. 

  -Já es­tou far­ta de diz­er à mãe para tirar daí es­sa pirosice... 

  -Pois fazes mal! -protestou Adri­ano, voltan­do-​se. Is­to já é «históri­co» …Tão «históri­co», no fim de con­tas, co­mo esse con­ta­dor de la­ca, co­mo este biom­bo de bam­bu... São im­agens de vários pas­sa­dos que já não voltam de maneira nen­hu­ma! Podes cr­er: é sim­ples­mente pre­cioso este teu re­tra­to dos de­zoito anos... 

  -Dezas­sete... -emen­dou Ri­ta. 

  -Es­tá aqui tu­do: o mun­do em que nós cresce­mos, a in­genuidade, a pieguice, o ide­al­is­mo dos anos trin­ta... Talvez te pareça es­túpi­do, mas este re­tra­to fez-​me lem­brar que ain­da apan­há­mos a época do tan­go... 

  -Tens saudades? 

  -Ten­ho -re­spon­deu, som­brio. Lo­go a seguir, br­us­ca­mente: -Mas não en­ten­do, ca­da vez en­ten­do menos, es­sa fau­na que veio de­pois de nós. 

  -Não di­gas is­so! São muito mais di­rec­tos, muito mais fran­cos... E até mais in­teiros. -De­pois, re­con­sideran­do: Há de tu­do, de resto. 

  E Adri­ano, com vol­ubil­idade, evoluin­do por en­tre os móveis: 

  -Lem­bras-​te do so­brin­ho da El­sa? O Vas­co. O Vasquin­ho. Um fedel­ho aloura­do que ain­da gat­in­ha­va, nes­ta al­tura... -Apon­tou o re­tra­to. 

  -Lem­bro-​me, sim. Era um be­bé amoroso. 

  -Pois bem: esse be­bé amoroso cresceu, for­mou-​se em Di­re­ito, es­teve a es­ta­giar lá no meu es­critório. É para mim o tipo per­feito des­ta no­va ca­ma­da... Tin­ha a chave de casa aos catorze anos, um out­board aos dezas­seis, au­tomóv­el aos de­zoito. E é o su­jeito mais anódi­no, mais in­ep­to que pos­sas cal­cu­lar! Só me deu chat­ices! Só me deu chat­ices! 

  -Não te ir­rites, meu queri­do... Não vale a pe­na! E ol­ha que es­tás a gen­er­alizar a par­tir de um ca­so... 

  -Tens razão. De­scul­pa. Mas fi­co fo­ra de mim quan­do fa­lo nesse tipo... -e pas­sou, de­va­gar, a mão pe­lo ros­to, pela nu­ca. 

  -Não queres tirar o so­bre­tu­do? 

  -Sim, claro que sim. Onde é que o deixo? 

  