-Aí, nu­ma cadeira. E va­mos até lá den­tro, que es­tá mais agradáv­el. 

  Seguiram pe­lo corre­dor e en­traram na casa de jan­tar. Era out­ro mun­do: aqui evo­ca­va-​se, pe­lo con­trário, a lon­ga per­manên­cia do gen­er­al em guarnições da provín­cia. A mobília es­cu­ra, sól­ida, encer­ada, já de­via ser dos seus tem­pos de sub­al­ter­no. De um dos la­dos, um grande ar­caz en­costa­do à parede; do out­ro, o fogão de pe­dra e de ti­jo­lo, com duas achas a crepitarem, por en­tre mon­tões de cin­za in­can­des­cente. 

  -Per­feito! Nem tu cal­cu­las!...Era is­to mes­mo que eu de­se­ja­va... -E aprox­imou-​se da lareira. Só en­tão de­scorti­nou, no cadeirão da es­quer­da, o vul­to sum­ido, to­do de roxo e ne­gro, com uma cap­in­ha de mal­ha pelas costas. -Oh! Sen­ho­ra Dona Ri­ta... -mur­murou, bei­jan­do-​lhe a mão. 

  -Há tan­to tem­po! Há tan­to tem­po! -ex­clam­ou ela, bran­da­mente, na sua voz cautelosa, de sur­da. 

  -É ver­dade, Sen­ho­ra Dona Ri­ta... -E começou, quase aos berros, a per­gun­tar-​lhe pe­lo es­ta­do de saúde, se gostara de nes­sa tarde ter ido a Óbidos, se havia muito tem­po que não ia a Lis­boa... Mas a vel­ha sen­ho­ra lim­ita­va-​se a me­near a cabeça, ora num sen­ti­do ora noutro, sem apreen­sív­el re­lação, geral­mente, com as per­gun­tas que ele ia fazen­do. 

  -Pron­to! -de­cid­iu Ri­ta. -Já cumpriste o teu de­ver. Ela não en­ten­deu patavina do que diss­es­te (ago­ra já não ou­ve na­da de na­da), mas fi­cou-​te gra­ta até ao fim da vi­da. Nos próx­imos seis meses, em to­das as car­tas, há-​de per­gun­tar-​me por ti. E de acres­cen­tar, in­vari­avel­mente, que és uma pes­soa muito ed­uca­da. 

  -Óp­ti­mo! Quem me de­ra viv­er as­sim na recor­dação de to­da a gente! 

  Sen­taram-​se em dois cadeirões, do out­ro la­do do fogão.

  -De­scul­pa, meu queri­do, mas parece-​me que não ten­ho na­da para te dar de be­ber. Quan­do muito, talvez se ar­ran­je vin­ho do Por­to... 

  -Não, não, de maneira nen­hu­ma! Já be­bi de mais du­rante a tarde. 

  -Bem me pare­cia... 

  -Porquê? 

  -Ora! to­do aque­le saudo­sis­mo, a época do tan­go, a rai­va aos novos... Mas já man­dei faz­er chá. Não, não foi por tua causa. A mãe gos­ta sem­pre de tomar chá de­pois do jan­tar. 

  -Tem graça! É jus­ta­mente o que me apetece. 

  No fogão, uma das achas resval­ou, com um ruí­do seco, es­pal­han­do cin­za em derre­dor. Ri­ta levan­tou-​se, pe­gou no fer­ro e tra­tou de a re­por no seu lu­gar. Por um in­stante, flame­jaram-​lhe os ca­be­los, cin­ti­la­ram-​lhe as mãos, in­cen­diou-​se-​lhe o per­fil, de­bruça­do no fo­go... 

  -Oh! Ri­ta... -E o próprio nome pare­cia crepi­tar amarga­mente. Pen­sar que andá­mos sem­pre des­en­con­tra­dos!...

  Ela so­er­gueu-​se, endi­re­itou-​se va­garosa­mente: 

  -Deixa lá... Is­so per­tence à história anti­ga. -De­pois, voltan­do a sen­tar-​se, pousou-​lhe ao de leve a mão no braço: -Lem­bras-​te do nos­so com­pro­mis­so, há quinze anos...? Lem­bras-​te? An­da... Fala-​me de ti. De ti... e da Paula. Era Paula que se chama­va, não era? -E, sem es­per­ar con­fir­mação, mu­dan­do lo­go de tom: -Se não te im­por­tas, podes até começar por me diz­er... o que tem a ver com tu­do is­so o so­brin­ho da El­sa. 

  -Mas... 

  -Es­cusas de ne­gar. Já te con­heço muito bem. Só não cheguei a perce­ber que es­pé­cie de re­lação... 

  -Re­lação...? To­da e nen­hu­ma, ao fim de con­tas... Foi de fac­to por in­ter­mé­dio do Vas­co que eu con­heci a Paula. -Em segui­da, baixan­do a voz: -E foi no car­ro dele que ela mor­reu. 

  En­trou a cri­adi­ta com o tab­uleiro do chá. Lá con­seguiu por fim de­pô-​lo na mesin­ha baixa, di­ante da la