reira, de­pois de ter es­boça­do, uma vez mais, a sua dança de bor­bo­le­ta ataran­ta­da. Ri­ta, com um gesto, man­dou-​a em­bo­ra. E voltan­do-​se para Adri­ano, en­quan­to começa­va a servir o chá, per­gun­tou: 

  -Mas havia qual­quer coisa en­tre eles? 

  -Não, que ideia! De maneira nen­hu­ma! Já me bas­ta que ele ten­ha de­sem­pen­hado, em tu­do is­to, um pa­pel tão es­túpi­do co­mo o Des­ti­no. Por muito es­tran­ho que te pareça, ten­ho a certeza de que não hou­ve na­da, nun­ca! Er­am ami­gos, tin­ham si­do cole­gas na Fac­ul­dade... E ela apare­cia de vez em quan­do lá no es­critório: iam muitas vezes jan­tar jun­tos, de­pois dançar... Mas não havia na­da, ten­ho a certeza! 

  -Acred­ito! Acred­ito per­feita­mente. E já es­tou a adi­vin­har o resto. 

  -Poderás quan­do muito adi­vin­har o que se pas­sou. E apoiou a nu­ca no es­pal­dar da cadeira. -Mas o mais im­por­tante foi o que não chegou a acon­te­cer. Ela era talvez a úni­ca pes­soa ca­paz de me sal­var; is­to é: de não me deixar en­vel­he­cer muito de­pres­sa... E eu era, com certeza (noutro sen­ti­do, é claro), a úni­ca pes­soa ca­paz de a ter sal­vo. 

  -Is­so, meu queri­do, são coisas que nun­ca se sabem... 

  -Pois não. Até pos­so pen­sar que ela es­taria con­de­na­da a mor­rer ce­do, já antes de me con­hecer. De qual­quer mo­do, o Des­ti­no deu-​lhe uma chance. E a mim tam­bém. Baixan­do a cabeça, acres­cen­tou, com um leve sor­riso: O Des­ti­no... Co­mo havia eu de o ter re­con­heci­do, sob o as­pec­to id­io­ta de um play­boy? 

  -Não me re­pugna acred­itar -começou Ri­ta -que o Des­ti­no se­ja, de fac­to, um play­boy. -De­pois, to­can­do-​lhe no braço: -Queres que te sir­va de açú­car? 

  -Não, obri­ga­do. Eu sir­vo-​me. Vês co­mo es­tou cal­mo? É tão bom de­scul­par­mo-​nos com o Des­ti­no, faz­er­mos en­trar a Tran­scendên­cia nos nos­sos prob­le­mas de traz­er por casa... 

  -Ou por fo­ra de casa... 

  Mas Adri­ano prosseguiu, sem a ou­vir: 

  -Eu po­dia lá re­si­stir à ten­tação de me ver a li­dar com o Des­ti­no, tu cá, tu lá, ain­da que para is­so me fos­se necessário em­prestar-​lhe as feições de um su­jeito per­feita­mente in­ep­to!... Uma se­mana de­pois da úl­ti­ma con­ver­sa que tive­mos (e que foi prati­ca­mente uma rup­tura), o Des­ti­no (sem­pre o Des­ti­no!) en­car­regou-​se de a de­stru­ir de en­con­tro a uma ár­vore... 

  -Era o so­brin­ho da El­sa quem ia a guiar? 

  -Era. Iam pas­sar o réveil­lon a Sin­tra, a casa de uns ami­gos. 

  -E a ele? Não lhe acon­te­ceu na­da? 

  -Ab­so­lu­ta­mente na­da. 

  -Ago­ra com­preen­do: é mo­ti­vo de so­bra para lhe teres ran­cor.

  -Ran­cor? Sei lá se lhe ten­ho ran­cor... En­tão ele não era o Des­ti­no? O Des­ti­no que ma trouxe e a quem eu de­pois a en­treguei...? Repara: pos­so ain­da ar­ran­jar out­ra ex­pli­cação: a de que o Vas­co foi ape­nas o in­stru­men­to, o cego in­stru­men­to, de uma es­pé­cie de vin­gança, in­con­sciente, claro…da família da min­ha mul­her. 

  -Dis­parate, meu queri­do... 

  -É out­ro mo­do, repara, de dar a tu­do is­to um sen­ti­do tran­scen­dente... -Levan­tou-​se, rodeou as duas cadeiras e pousou a cháve­na so­bre o tab­uleiro. 

  -A El­sa sabia do ca­so? -per­gun­tou Ri­ta. -Não. Só veio a saber uns meses de­pois. E porque eu lho con­tei. Porque não fui ca­paz de o ocul­tar. Cus­ta muito es­con­der uma pes­soa mor­ta... quan­do por fim de­sco­bri­mos que es­sa pes­soa era o nos­so fu­turo. Era? Ou se­ria? Já não me en­ten­do com os tem­pos dos ver­bos. 

  -O fu­turo... O pre­sente... O pas­sa­do... -mur­murou Ri­ta. -A Paula... A El­sa... Es­tou a con­cluir que sou eu o teu pas­sa­do.

  -Vês? Acabamos por nos dis­t