rair com estes jo­gos. São pas­satem­pos... -E en­con­trou, nesse in­stante, os ol­hos de Dona Ri­ta, que bran­da­mente lhe sor­ria. Sor­riu tam­bém.

  -De que jul­gará a tua mãe que nós es­ta­mos a falar? 

  -Do Meni­no Je­sus, provavel­mente. 

  Adri­ano con­tin­ua­va de pé, e, em vez de voltar a sen­tar-​se, apoiou os braços no es­pal­dar da cadeira de Ri­ta. As­sim, via-​lhe ape­nas os ca­be­los, mais adi­ante o fo­go... 

  -Aí es­tá: para nós, o difí­cil é ver as coisas com in­ocên­cia, com to­da a sim­pli­ci­dade que elas tiver­am. Faz ho­je um ano que me en­con­trei com a Paula pela úl­ti­ma vez. E eu es­ta­va longe de su­por que se­ria a úl­ti­ma vez. En­con­trá­mo-​nos, ao fim da tarde, antes do jan­tar, no bar de um ho­tel... Eu já não ia muito bem dis­pos­to: tin­ha ti­do um dia hor­rív­el, so­bre­car­rega­do de tra­bal­ho... E de­pois, sabes, o am­bi­ente de Lis­boa, na véspera de Na­tal, é sem­pre uma coisa que me com­pli­ca com os ner­vos... 

  -Tam­bém a mim. 

  -Mas não quis, ape­sar de tu­do, deixar de apare­cer. Tin­ha-​lhe com­pra­do uma lem­brança... 

  -E ela out­ra, para ti... É o cos­tume. 

  -Ex­ac­to. Um par de lu­vas... foi o que ela me deu. 

  -Es­tou a ver a ce­na: prin­cip­iaram por ofer­ecer um ao out­ro as pren­das de Na­tal... E, de­pois, sem saberem porquê, começaram a dis­cu­tir.

  -Não foi bem as­sim. Eu não cheguei a diz­er na­da. 

  Mas a Paula, que geral­mente fala­va pouco, lançou-​se, de re­pente, nu­ma tremen­da di­atribe, num cer­ra­do req­ui­sitório. Não era pro­pri­amente con­tra mim... Antes fos­se! Nesse ca­so talvez eu tivesse reagi­do. Era mais con­tra o ab­sur­do, dizia ela, o ab­sur­do da nos­sa situ­ação. Que não se sen­tia dis­pos­ta a par­til­har-​me com mais ninguém. Que eu pre­cisa­va de es­col­her. Etecétera, etecétera... Ora o ca­so du­ra­va há per­to de seis meses: nun­ca se tin­ha pos­to se­quer o prob­le­ma de al­ter­ar o que es­ta­va es­ta­bele­ci­do. E ela de­sco­bria, de um mo­men­to para o out­ro que afi­nal de con­tas an­da­va tu­do er­ra­do! 

  -Sei muito bem o que is­so é, meu queri­do...E Adri­ano teve a sen­sação de que ela teria fecha­do os ol­hos, pela maneira co­mo as palavras lhe saíram. De ol­hos fecha­dos con­tin­uar­ia, talvez, ao prosseguir: -É o grande de­feito do Na­tal: es­sa ver­tigem que nos dá... Es­sa ver­tigem de ser­mos puros, de ser­mos in­teiros... 

  -O pi­or de tu­do é que eu sen­tia a mes­ma coisa con­fes­sou Adri­ano, afa­stan­do-​se da cadeira e re­cuan­do quase até ao meio do aposen­to. No­tou que a Dona Ri­ta o seguiu com um ol­har apreen­si­vo. -E creio que nes­sa al­tura prin­cip­ia­va mes­mo a gostar dela. Que te parece? Não acred­itas? Não con­segues acred­itar? -Ri­ta não re­spon­deu. -Mas calei-​me: com me­do de ser fra­co, de ced­er, de começar a tran­si­gir... Ela en­tão levan­tou-​se, à es­pera que eu dissesse al­gu­ma coisa... Mas eu não disse na­da. (Bas­ta­va, se cal­har, ter di­to o nome dela.) E foi-​se em­bo­ra. 

  Terá ele próprio es­boça­do o gesto de ir-​se-​em­bo­ra? As­sim, pe­lo menos, o in­ter­pre­tou a Dona Ri­ta. E to­da ela se afligiu, a pon­to de lhe cair dos om­bros a cap­in­ha de mal­ha: en­tão não fi­ca­va até à meia-​noite? Tin­ha man­da­do faz­er fil­hós, umas ra­banadas…E havi­am broas, bo­lo-​rei. Tu­do na maior sim­pli­ci­dade. Mas fazia muito gos­to em que ele fi­cas­se. Que sim, que fi­ca­va! -tran­quil­izou-​a Adri­ano, sor­rindo, com larga ex­uberân­cia de gestos afir­ma­tivos. E Ri­ta co­men­tou: 

  -Há muito tem­po que eu não a ou­via falar tan­to! Ho­je en­quan­to fo­mos a Óbidos, deve ter di­to ao to­do três palavras.

  Já pas­sa­va da uma quan­do se de