­spediu. Ri­ta acom­pan­hou-​o, de no­vo, à sala de en­tra­da, de onde de­sa­pare­cera, en­tre­tan­to, o calorífero de petróleo. 

  -O so­bre­tu­do? Onde deix­as­te o so­bre­tu­do? 

  -Es­tá aqui. 

  E só en­tão Adri­ano reparou co­mo fulgia, a um can­to, em cima de uma ar­ca, uma grande braça­da de aloés. Agres­sivos, rúti­los... to­davia começavam a se­car. Mas não in­spi­ravam piedade nem ter­nu­ra: quan­to mais sec­os, mais so­bre si próprios se cur­vavam. Em con­tra­parti­da, con­fran­giam, noutra jar­ra, umas po­bres pé­ta­las mod­estas, ar­rox­eadas, mur­chas de frio e de penum­bra. 

  -Co­mo di­abo se chamam es­tas flo­res? -per­gun­tou Adri­ano. 

  -De­spe­di­das-​de-​verão. 

  -De Verão? Ain­da? 

  -Du­ram mais tem­po do que a gente jul­ga. -E aju­dan­do-​o a ve­stir o so­bre­tu­do: -Agasal­ha-​te bem. Daqui até ao ho­tel ain­da vais apan­har bas­tante frio. 

  Ou­via-​se out­ra vez, en­ro­la­do e con­fu­so, o ruí­do das on­das. 

  -Tem graça! -ex­clam­ou Adri­ano. -En­quan­to es­tive­mos lá den­tro, deix­ei por com­ple­to de ou­vir o mar. Foi a primeira vez... des­de on­tem à noite, des­de que cheguei. 

  Ri­ta não disse na­da. Mas ele, ao voltar-​se, de­sco­briu-​lhe um véu nos ol­hos claros, uma som­bra crispa­da na bo­ca en­tre­aber­ta... Em silên­cio, aprox­imou os lábios. 

  -Aqui, meu queri­do... -mur­murou, apon­tan­do e ofer­ecen­do-​lhe a face. A seguir, bei­jou-​o ela, tam­bém no ros­to. -Até aman­hã? 

  -Até aman­hã. 

  -Es­tá com­bi­na­do, hem? Temos ain­da muito que con­ver­sar. Temos de pôr mui­ta coisa em dia... 

  -Claro que sim. 

  E é Adri­ano quem abre a por­ta. São am­bos en­volvi­dos pe­lo frio, pela névoa, pela súbi­ta am­pli­fi­cação do barul­ho das on­das. 

  -Vai para den­tro -re­comen­da ele, já no pata­mar. 

  Mas Ri­ta per­manece, en­tre por­tas, en­costa­da à om­breira. E Adri­ano resmoneia, de cabeça baixa, en­quan­to começa a calçar as lu­vas: 

  -São es­tas, se não me engano... 

  -São es­sas, são... 

  -O quê? -per­gun­ta ele, er­guen­do os ol­hos, es­pan­ta­do de ela o ter en­ten­di­do. 

  -São es­sas as lu­vas que a Paula te ofer­eceu. Vê-​se bem pe­lo mo­do co­mo lh­es pe­gaste... 

  Fi­cou por um in­stante ilu­mi­na­da. Foi a pas­sagem do fa­cho das Berlen­gas -que lo­go adi­ante acende um muro de pe­dra, a es­quina do ho­tel, rochas, dunas... até mais uma vez se des­faz­er no mar. 

  -Oh! Ri­ta... -E o nome vem sus­pen­so na crista de uma on­da. 

  Ela es­tende dois de­dos, a aflo­rar-​lhe o ros­to. Ou a se­lar-​lhe os lábios?

  -Gostavas muito dela. Gostas ain­da muito dela. 

  -Oh! Ri­ta... Era is­to mes­mo que eu pre­cisa­va de te ou­vir. 

  -E fez-​te bem, sabes? -prossegue, em sur­di­na. -Es­tás out­ra vez igual a ti... ao que tu eras... há vinte anos. -De­pois, co­mo se ape­nas falasse para si própria: -Viú­vo?...Tens muito mais o as­pec­to de um ór­fão.

  Surge, out­ra vez, rompen­do a névoa, o braço aéreo do farol. Ri­ta, en­tre­tan­to, fe­chou a por­ta. Mas tão de­va­gar que nem se ou­viu. 

  1962

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