Baleia grande. Quan­do os home­ns se jun­taram em vol­ta e, agar­ra­dos ao bote, começaram en­tre si a ver se fal­ta­va al­guém, con­taram e chegaram à con­clusão de estarem to­dos. O que con­ta­va, con­ta­va-​se a si duas vezes: ao ini­ciar a con­tagem e no fim. Foi só quan­do a gasoli­na chegou, muito de­pois, por es­tar longe, que, os de den­tro dela, vi­ram que fal­ta­va um homem. Ao per­guntarem por ele, aque­les, ain­da toma­dos de pâni­co, teimavam em as­se­gu­rar que não fal­ta­va ninguém. Salvos, já a bor­do da gasoli­na, con­stataram a re­al­idade: tin­ha de­sa­pare­ci­do um homem não mais haven­do qual­quer in­dí­cio a seu re­speito. 

  Eu acaba­va de gan­har uma grande par­ti­da, e aque­les home­ns es­tavam-​me agrade­ci­dos por não terem per­di­do a Baleia. Pen­sei no que diz o vel­ho rifão: «Um homem com razão tem mui­ta força.» 

  O bote ago­ra aban­donara a Baleia e di­ri­gia-​se para nós. Por que razão? Era o que íamos saber den­tro em pouco tem­po. 

  Ela de­via es­tar per­to de sair. A lin­ha não fazia força, co­mo acabara de ver­ificar. No en­tan­to, com menos um homem, o mar­in­heiro feri­do nas mãos, se­ria difí­cil me­ter al­gu­mas braças de lin­ha den­tro; mas co­mo o bote es­ta­va a chegar, veríamos qual a res­olução a tomar. 

  Aprox­ima-​se. Es­ta­mos quase à fala. O tran­cador Mafre­do es­tá na popa, de pé, na frente de José Maria, não haven­do qual­quer mostra de es­tar feri­do. Vão pro­lon­gar connosco. Ati­raram-​nos um lançoope para a proa que é pas­sa­do à caçadeira, en­quan­to, no bote, lev­am os re­mos. 

  -Peguem nesse seio da lin­ha e tragam-​no para aqui or­de­na o ofi­cial. 

  Um mar­in­heiro foi ex­ecu­tar a manobra in­do-​se en­costar à lin­ha pela al­tura do choque que fi­ca colo­ca­do na bor­da en­tre o leito de proa e o ban­co um. Mais dois home­ns aju­daram à manobra e o seio da lin­ha, pre­sa à Baleia, foi pas­sa­do na roldana. Sem­pre com o out­ro se­guro, começam a me­ter lin­ha den­tro, for­man­do um seio que, aos poucos, vai crescen­do até que, chega­do à popa, é pas­sa­do ao la­gai­ete. A lin­ha pux­ada por to­da a trip­ulação vai vin­do den­tro e é apan­ha­da en­tre o ban­co sete e o leito da popa, frente ao ofi­cial. 

  Foram col­hi­das umas 30 braças e foi man­da­do largar a pon­ta da lin­ha ain­da pas­sa­da ao ce­po da proa da gasoli­na, manobra que foi facil­mente ex­ecu­ta­da com a lin­ha sem faz­er força, ten­do-​se só des­feito o aper­to da­do con­tra o ce­po pe­lo efeito da chega­da ali do es­tro­vo, tam­bém já de­samar­ra­do da pon­ta da lin­ha. 

  -Pos­so largar? 

  -Podes. Fi­cas aí den­tro e vais ver se dás umas lançadas na Baleia que deve es­tar a sair. Toma cuida­do: ela avançou para nós! Pe­ga de dente! 

  Ago­ra eu perce­bia a razão de o Mafre­do se en­con­trar na popa. Tin­ha, de­cer­to, apan­hado um tremen­do sus­to e temera es­tar na proa. 

  Larga­da a pon­ta da lin­ha, o bote começou a sep­arar-​se de nós e dei or­dem para lig­ar o mo­tor para vante. Pas­sei através da es­cotil­ha e fui de­baixo do leito bus­car uma lança que lev­ei para a proa jun­ta­mente com o lançoope que agu­cei no es­tropo da lança. A out­ra pon­ta foi pas­sa­da ao cabeço colo­ca­do de es­ti­bor­do, onde fi­ca pre­sa, vin­do por cima da bor­da jun­to à casaria até à proa. 

  A Baleia tin­ha saí­do com a cabeça em noroeste e com um an­da­men­to bem rápi­do, a cer­ca de meia mil­ha de nós. Man­dei dar to­da a força ao mo­tor e, de pé, em cima do leito, da­va sinal ao mestre de qual a di­recção que de­via tomar. 

  Para matar de bor­do de uma gasoli­na, es­ta pas­sa a to­da a força ao la­do da Baleia, a lança é ati­ra­da e lo­go a gasoli­na se desvia, fi­can­do tu­do pela popa. Q