e não acon­te­cesse, se­ria de con­sid­er­ar muito se­ri­amente o aban­dono daque­la Baleia, defini­ti­va­mente. 

  Não mais de cin­quen­ta met­ros nos sep­ar­ava. Eu es­ta­va na proa aju­dan­do a puxar a lin­ha. A lança prepara­da, ali se en­con­tra­va a meu la­do. A Baleia lá es­ta­va muito qui­eta, aten­ta ao mais pe­queno ruí­do, co­mo já nos ha­bit­uara. Mal bu­fa­va, e, quan­do o fazia, er­am bu­fos es­paçosos e fra­cos. 

  -Faz­er baó, e ar­mar re­mos -or­de­nou o José Maria. 

  De­bruço-​me na proa, apan­ho o seio da lin­ha, e tra­go-​o por fo­ra da bor­da, fi­can­do a lin­ha sem­pre pas­sa­da na roldana, pronta a cor­rer quan­do for larga­do o baó. En­trego o seio ao homem do baó que se en­con­tra atrás de mim. Este homem vai puxan­do a lin­ha, deixan­do-​a sem­pre fo­ra da bor­da, vin­do aque­la de ar­ras­to atrás do bote. Nes­ta al­tura os re­mos é que fazem a manobra, im­pri­min­do o bote para a frente ou para trás, fa­cil­itan­do o es­forço de puxar a lin­ha, que fi­ca prati­ca­mente re­duzi­do ao seu pe­so. Es­ta manobra, deixan­do este seio de lin­ha sol­ta por cima da água quan­do nos aprox­imamos da Baleia, per­mite-​nos a aprox­imação com maior se­gu­rança, pois se a Baleia tiv­er al­gu­ma reacção in­es­per­ada, a primeira lin­ha a faz­er força é a que es­tá no mar, ao con­trário do que acon­te­ceria se tivésse­mos sem­pre meti­do a lin­ha den­tro do bote. 

  De­vi­do à imo­bil­idade da Baleia, aprox­imá­mo-​nos rap­ida­mente. Sep­ara-​nos um bote e meio de com­pri­men­to, se tan­to. A gasoli­na, um pouco pela proa e a uns três com­pri­men­tos por bom­bor­do, acom­pan­ha­va-​nos. Eis que a Baleia, com aque­la fa­cil­idade que já tive ocasião de de­scr­ev­er, se vol­ta para nós. Não havia dúvi­das: ia at­acar!... 

  -Cia para ré... Cia para ré... -man­damos, ao mes­mo tem­po, eu e o José Maria. 

  -Larga o baó e ar­ma o teu re­mo. 

  Deixa cor­rer a lin­ha livre -er­am as or­dens dadas pe­lo ofi­cial, que, já de boné na mão, ace­na­va para a gasoli­na se aprox­imar da Baleia. 

  Tu­do se pas­sou num mo­men­to, mo­men­to em que nos vi­mos meti­dos den­tro da bo­ca daque­la Baleia dana­da. Lá es­ta­va ela, de la­do, com a bo­ca aber­ta avançan­do para nós, com to­da a ligeireza que po­dia. Es­per­ava sen­tir al­gu­ma coisa den­tro da bo­ca para a fechar. Se o tivesse feito, já lá fi­caria um terço do bote. Mas não: ela de­via quer­er mais, ou en­tão, o mais nat­ural, co­mo não nos po­dia ver, só de­pois de sen­tir o faria. 

  A trip­ulação, in­ci­ta­da por mim e o José Maria, fazia ver­gar os re­mos, e o an­da­men­to para ré era equipara­do ao da Baleia. 

  A gasoli­na tin­ha pas­sa­do por ela e por nós, mas muito larga, e o an­imal não fez qual­quer ca­so. No­va vol­ta já es­ta­va a ser da­da para pas­sar mais per­to, na ten­ta­ti­va de ela nos deixar de perseguir. Aceno para o Sabi­no que es­tá em cima da casa, e faço sinal para se aprox­imarem e darem uma lança­da. O Sabi­no deve ter en­ten­di­do, porque saltou para a proa e, de lá, para a es­cotil­ha. Pe­gou na lança, e man­dou o Mafre­do en­costar-​se mais. 

  A nos­sa situ­ação den­tro do bote era a mais críti­ca pos­sív­el. Nem meio metro con­seguíamos sair de den­tro daque­la bo­ca... Con­tin­uá­va­mos a deixar cor­rer a lin­ha livre­mente e ain­da a aux­il­iá­va­mos a sair o mais rápi­do pos­sív­el. 

  A gasoli­na vem muito per­to da Baleia. Vai ser a ocasião de levar uma lança­da. A proa pas­sa a cau­da e o Sabi­no não es­pera. De­via es­tar in­qui­eto para se ver livre da lança, porque a man­da lo­go adi­ante do am­po. Mais uma lança­da que de na­da servirá! E mais uma vez que ela at­aca, fe­liz­mente ain­da sem con­se­quên­cia