do o que se pas­sa e o me­do fá-​los re­mar para fu­girem, mes­mo antes do tem­po... 

  Eu es­ta­va de pé, na proa, seguin­do os movi­men­tos daque­la Baleia que pare­cia lou­ca, movi­da por in­tu­itos de au­tode­fe­sa, nun­ca pres­en­ci­ados por mim, ou en­tão dota­da de in­teligên­cia fo­ra do nor­mal naque­les an­imais. Ela vin­ha so­bre nós com uma rapi­dez im­pres­sio­nante. A um com­pri­men­to do bote, dei­ta-​se de la­do e abre a bo­ca. Em poucos se­gun­dos, íamos ser apan­hados, mes­mo deixan­do a lin­ha cor­rer e ain­da aux­il­ia­da. 

  Eu tin­ha de fu­gir dali, e, pe­lo menos, mais dois home­ns, deixan­do aque­la parte do bote para a sua pre­sa, quan­do fechas­se a bo­ca. Ten­taríamos sal­var-​nos, re­cuan­do para a popa do bote o que via ser muito difí­cil, porque, en­quan­to hou­vesse por cima da água al­gu­ma coisa que fizesse ruí­do ou ela visse, se­ria masti­ga­do ou en­goli­do. 

  Tu­do is­to me deve ter ocor­ri­do, porque, na min­ha at­itude, não hou­ve hes­itação: peguei na lança a meu la­do e lan­cei-​a com to­da a min­ha força para o fun­do da bo­car­ra aber­ta que lo­go se fe­chou, sentin­do-​se um zurzir rouco, en­quan­to se ou­via o es­ta­lar da madeira do cabo da lança a des­faz­er-​se pe­lo aper­to daque­les po­tentes max­ilares... 

  Endi­re­ita-​se, bate de cau­da e cabeça por duas vezes, faz ar­co e afun­da-​se. Irá mer­gul­har?!...Ou fi­cará só a meia água?! A úl­ti­ma hipótese é a mais prováv­el vis­to não ter vi­ra­do o rabo. 

  De no­vo a gasoli­na se aprox­ima, em­par­el­han­do com o nos­so bote. Desli­ga o mo­tor. O Mafre­do fala com o José Maria. O Sabi­no na proa, só com o tron­co de fo­ra, se­gu­ra a lança que tem atrav­es­sa­da na sua frente. Es­tão a pouco mais de dois com­pri­men­tos de bote de nós, um pouco mais adi­anta­dos. 

  -Atenção: dá a ré a to­da a força -gritei para bor­do da gasoli­na com voz e gestos, afli­to. 

  Era tarde! A Baleia, vin­do de baixo para cima, com a cabeça ao al­to, pe­ga na gasoli­na a um terço da vante, e es­ta sai com a proa to­da fo­ra da água. Mo­men­to ter­rív­el de aflição! To­dos gri­tam! Recor­do ain­da a ex­pressão de ter­ror do Sabi­no, de mãos na cabeça. A gasoli­na de meio para vante es­tá prati­ca­mente to­da fo­ra de água e hor­riv­el­mente ador­na­da para bom­bor­do. 

  A Baleia não tin­ha a gasoli­na den­tro da bo­ca. Se as­sim fos­se, já a teria fecha­do. No en­tan­to, co­mo se po­dia ver, a quil­ha es­ta­va pre­sa na pon­ta do car­ril­ho, mas, pre­sa por pouco co­mo es­ta­va, ia com certeza largar-​se. As­sim foi; a gasoli­na cai de pan­ca­da na água, lev­an­tan­do um grande sal­seiro. A Baleia cresce ain­da mais aci­ma da água. Tem prati­ca­mente meio cor­po à vista. Es­tá muito por cima da proa da gasoli­na e en­costa­da a ela com a pa­pa­da e uma parte da bar­ri­ga. 

  Deixa-​se lenta­mente cair para trás ... Será pos­sív­el?!...Aque­le an­imal, de­pois de mostrar tan­ta in­teligên­cia e de­streza, vai en­tre­gar-​se à morte?! 

  O meu gri­to de ale­gria deve ter si­do enorme: 

  -Ago­ra, Sabi­no! Dá-​lhe ago­ra. 

  O Sabi­no, que con­tin­ua­va ali es­tu­pe­fac­to, des­per­ta e percebe do que se tra­ta. A Baleia es­tá à sua mer­cê! Con­segue agar­rar na lança que havia cor­ri­do con­tra a bor­da, e, sem mes­mo de­sen­riçar o lançoope, man­da-​a em di­recção da bar­ri­ga, ali ex­pos­ta. 

  A lança ain­da não tin­ha en­tra­do to­da e já de no­vo eu gri­ta­va: 

  -É nos­sa! É nos­sa!...Es­ta é nos­sa!...

  Não me po­dia en­ga­nar. A lança atrav­es­sara os in­testi­nos, o que a levaria a uma morte cer­ta den­tro de cin­co a sete ho­ras, no máx­imo. 

  Apan­ha­da a lança­da, ro­la-​se, fi