m bo­ca­do pas­sa­do, quan­do as Baleias começaram, talvez de­vi­do ao cansaço, a diminuir o an­da­men­to. Es­tá­va­mos a aprox­imar­mo-​nos a pouco e pouco. Já não mer­gul­havam, in­do sem­pre por cima, em­bo­ra só bu­fan­do de min­utos a min­utos. 

  A «Maria Manuela», que tin­ha de no­vo pas­sa­do por nós, ia já um bom bo­ca­do à nos­sa frente, quan­do, subita­mente, as Baleias av­agaram ain­da mais a sua cor­ri­da. A gasoli­na, que ia mes­mo chegan­do ao rabo de­las, em vez de largar o bote, qual o nos­so es­pan­to: pas­sa por elas com o bote sem­pre a re­boque, sem ao menos es­boçar uma at­itude de tran­car! 

  Es­tá­va­mos tam­bém a chegar, e de­pres­sa vi­mos a razão de tu­do o que tín­hamos pres­en­ci­ado!: as Baleias não pas­savam de cin­co ba­le­otes, pouco maiores do que os cafres, nem tão-​pouco aguen­tari­am o pe­so do arpão. Era, de fac­to, um crime in­útil tran­car um an­imal daque­les. 

  Tín­hamos an­da­do mais de três ho­ras naque­la perseguição e ago­ra era voltar para casa; não havia out­ra coisa a faz­er. A nos­sa gasoli­na av­agara o an­da­men­to e as­sim os ba­le­otes gan­haram de no­vo di­anteira, bu­favam quase nor­mal­mente, co­mo se o me­do lh­es tivesse pas­sa­do. 

  O tem­po a que atrás me referi, com ven­to so­pran­do fres­co de noroeste, tin­ha sofri­do grande al­ter­ação. Ago­ra não havia qual­quer ven­to, e o mar es­ta­va «es­tanhado», condições im­pos­síveis para an­dar de vela. 

  Al­gu­ma coisa de es­tran­ho se de­via es­tar a pas­sar, porque a gasoli­na «Maria Manuela» con­tin­ua­va a to­da a ve­loci­dade, já bas­tante dis­tan­ci­ada de nós, em­bo­ra sem­pre com o mes­mo ru­mo. 

  Foi de den­tro da nos­sa gasoli­na que o mo­torista, que tin­ha salta­do aci­ma da casa, com certeza para se cer­ti­ficar do que se pas­sa­va com a out­ra gasoli­na, que con­tin­ua­va no mes­mo an­da­men­to e mes­mo ru­mo, começou a faz­er sinais apon­tan­do para a proa. 

  To­dos, co­mo que im­peli­dos por uma mo­la, se puser­am de pé den­tro do bote! De­cer­to to­dos vi­am o mes­mo, e out­ra coisa não po­dia deixar de ser, nem se perce­bia co­mo ain­da não se tin­ha vis­to. O mar em to­da a nos­sa frente e en­quan­to a vista al­cança­va -es­ta­va cheio de Baleias! 

  O mar man­so de que há pouco falei era ago­ra en­cres­pa­do pe­lo re­doiço das in­úmeras Baleias que ali es­tavam. Não er­am dezenas, nem mes­mo cen­te­nas -de­vi­am ser mil­hares! 

  Es­tá­va­mos sep­ara­dos da «Maria Manuela» cer­ca de uma mil­ha. Es­ta con­tin­ua­va com o bote a re­boque, e já chegan­do àquele mar de baleias, en­quan­to nós, tam­bém ago­ra a to­da a força, íamos no seu en­calço... 

  No bote, o ofi­cial José Maria. O tran­cador era o Mafre­do. Este homem, de uns 55 anos, pare­cen­do muito mais idoso de­vi­do ao con­sumo diário do ál­cool, era um baleeiro cauteloso, medroso e de pou­ca cor­agem. Sal­vo er­ro, es­ta foi a sua úl­ti­ma ar­ri­ada den­tro de botes. Pas­sou a ar­ri­ar co­mo mestre de uma das gasoli­nas. 

  Dos restantes seis fazia eu parte, à da­ta um ra­paz de 16 anos, o mais no­vo que ali es­ta­va, re­mador ao re­mo três. Foi nes­ta tarde e noite que a min­ha con­sid­er­ação co­mo baleeiro muito subiu. Is­so de­vo ao José Maria, pela con­fi­ança que de­pos­itou em mim du­rante aque­las lon­gas ho­ras, con­fi­ança nasci­da, com certeza, da cor­agem e ag­ili­dade que ob­ser­va­va em to­dos os meus gestos e at­itudes.

  Será in­ter­es­sante lem­brar que, nesse dia, fazia parte da com­pan­ha uma out­ra figu­ra, já vos­sa con­heci­da: o carcereiro da cadeia das Ve­las, que, aquan­do daque­las idas, tin­ha a mul­her que fazia o seu lu­gar em ter­ra jun­to dos fer­ros, e muito foi lem­bra­da naque­la tar