­can­do com mais uma lança crava­da em si, mas ago­ra pro­fun­da­mente. O lançoope, que reben­ta, tam­bém lá fi­ca en­ro­la­do no seu cor­po. 

  Mas ain­da não de­siste: avança para nós e não para a gasoli­na. Va­mos ter no­vo ataque. Ten­ho a úl­ti­ma lança pronta a ati­rar. Não vou deixá-​la aprox­imar. Tentarei en­viar-​lha de no­vo para a bo­ca, o que tão bom re­sul­ta­do tivera. Sabia que não era acon­sel­háv­el ten­tar no­va aprox­imação que nos pode­ria ser fa­tal. Sim, era necessário por­mo-​nos ao largo e es­per­ar que o tem­po fos­se pas­san­do. Er­am cin­co e meia da tarde. A morte de­via dar-​se en­tre as dez e a meia-​noite. 

  A Baleia con­tin­ua­va a avançar, es­tando já muito per­to. Pego na lança, mas o José Maria in­ter­vém: 

  -Não temos mais nen­hu­ma. 

  -Nem vai ser pre­ciso. Temos é que nos pôr ao largo. Ten­ho a certeza que es­ta Baleia já traz a morte con­si­go repliquei.

  -Faz o que quis­eres, pe­lo mel­hor!... 

  Tan­to a trip­ulação co­mo o próprio José Maria du­vi­davam des­ta min­ha afir­mação, o que eu com­preen­dia: a maio­ria dos baleeiros não sabe que órgão se atinge com a lança­da aqui ou ali. Ati­ram a lança para «aque­le sí­tio», porque lh­es dis­ser­am que por ali ela viria a mor­rer, ou porque por aque­le out­ro a morte é mais ráp­ida. En­quan­to uma baleia tin­ha vi­da, era nor­mal não se parar de lancear até que a morte viesse, não se saben­do, no fim, qual a lança­da ou lançadas que a provo­cara. E is­to após, por vezes, muitas e muitas ho­ras de tra­bal­ho ex­ten­uante. 

  -Vá, va­mos. Re­mem duro -diz para a com­pan­ha que já o fazia, talvez su­plan­tan­do as suas próprias forças, o José Maria. 

  Eu tam­bém não par­ava de in­citá-​los, e foi a es­sa min­ha in­ci­tação que veio a re­spos­ta es­pir­itu­osa de um dos re­madores, que, ape­sar da situ­ação e talvez do me­do, não perdeu o seu bom hu­mor: 

  -Es­tá-​se mes­mo a ver que ela tem a morte con­si­go. 

  -Força, ra­pazes, senão ela vai-​nos pe­gar!... Força... Força... O di­abo não pára!... Ela vem em cima da gente co­mo um cão!... Se vocês não pux­am por ess­es re­mos, ela pe­ga-​nos des­ta vez!... -con­tin­ua­va o José Maria a in­ci­tar, en­quan­to, por cima das cabeças dos re­madores, não per­dia um movi­men­to do que se es­ta­va a pas­sar na proa, e para além dela. 

  Se era para ati­rar a lança, tin­ha de ser já. Deixar aprox­imá-​la mais, era ficar den­tro da bo­ca dela. De no­vo, não hes­itei: bal­anceei o tron­co e a lança par­tiu. Sucedeu o mes­mo: a bo­ca fe­chou-​se, ou­viu-​se um ron­co, o es­ta­lar do cabo, e o ro­lar do mon­stro, ago­ra para o nos­so es­ti­bor­do. Com is­to criá­mos al­gum avanço, que muito nos viria a valer. 

  Des­ta vez não de­siste, endi­re­ita-​se e vem para nós. 

  Foi a maior de to­das as perseguições, en­con­tran­do-​nos quase com­ple­ta­mente in­de­fe­sos. Re­ma­va-​se tu­do o que se po­dia. Até eu fui ar­mar o meu re­mo, deixan­do a lin­ha cor­rer livre­mente. O José Maria, de pé, em cima dos es­tri­bos, com o boné na mão, ace­na­va para a gasoli­na se aprox­imar rap­ida­mente. 

  Du­rante es­ta perseguição, a gasoli­na pas­sou por três vezes per­to da Baleia, mas ela nun­ca nos aban­don­ava. Foi só à quar­ta pas­sagem, e hon­ras ao Mafre­do, que pas­sou mes­mo a rasá-​la, que nos aban­donou. Tín­hamos a proa a es­cas­sos pal­mos do fun­do da sua bo­ca, e a lin­ha das três sel­has cor­ria na úl­ti­ma cen­te­na de met­ros.

  Em breve tam­bém largou a gasoli­na. Me­teu a cabeça no noroeste, apres­sou o an­da­men­to para umas seis a sete mil­has por ho­ra, e para ali nos lev­ou a re­boque... 

  Não mete­mos nen­hu­ma lin­ha den­tro. Es­tavam quase tr