s sel­has no mar. A dis­tân­cia en­tre o bote e a Baleia era grande, e tal da­va-​nos se­gu­rança. 

  A gasoli­na veio para o nos­so la­do, e a noite começou a cair sem que mais na­da se mod­ifi­cas­se. Até o an­da­men­to se mantin­ha... 

  O Mafre­do veio mais per­to e foram-​lhe dadas in­struções de co­mo pro­ced­er du­rante a noite. 

  A lanter­na, fazen­do parte da pala­men­ta e ten­do o seu lu­gar na caixa da roupa e co­mi­da, foi re­ti­ra­da. Tam­bém o foi o bi­co de vela que, de­pois de ace­so e colo­ca­do no su­porte, daria to­da a ilu­mi­nação daque­la noite; para muitos, talvez a mais tene­brosa e mais lon­ga da sua vi­da... 

  O José Maria chamou por mim para a popa. De fac­to, eu não era mais necessário ali, pe­lo menos por en­quan­to. Ver­ifiquei se tu­do es­ta­va em or­dem e para lá fui. Um homem, sen­ta­do no ban­co sete, se­gu­ra­va a lin­ha que tin­ha seis voltas pas­sadas ao la­gai­ete. O José Maria es­ta­va sen­ta­do em cima do leito. Foi ao la­do dele, em cima da bor­da de bom­bor­do, que tam­bém me sen­tei. Aí, com voz baixa, para não ser ou­vi­do pe­los out­ros, per­gun­tou se eu tin­ha a certeza de a Baleia mor­rer só com aque­la lança­da. Fiz-​lhe uma ex­pli­cação por­menoriza­da do que pen­sa­va so­bre is­so, ao que jul­go ter fi­ca­do con­ven­ci­do, porque me disse: 

  -Não se fala mais nis­so! Vais re­vis­tar ess­es home­ns to­dos bem re­vis­ta­dos e tirar-​lh­es as naval­has que tiverem. Não quero que a lin­ha «ar­rebente» du­rante a noite. 

  Para um ra­paz da min­ha idade, es­ta era, sem dúvi­da, a maior pro­va de con­fi­ança, pos­sivel­mente re­sul­ta­do do meu em­pen­ho em ser ca­paz e cora­joso co­mo baleeiro. A or­dem foi ex­ecu­ta­da com to­do o cuida­do. Qua­tro naval­has en­traram em meu poder, e a fa­ca da proa foi de lá re­ti­ra­da, ten­do si­do tu­do is­to en­tregue ao José Maria. 

  -Não, guar­da as naval­has na tua al­gibeira, e dá-​me a fa­ca. 

  Arredou um pouco as per­nas, abriu a pe­que­na gave­ta, pre­sa com corrediças, por baixo do leito, do la­do de bom­bor­do, onde er­am guarda­dos al­guns apar­el­hos, tais co­mo fios, pin­hos para arpões e proa, uma li­ma para afi­ar as lanças, um maço de ve­las, uma ou duas caixas de fós­foros, etc., e me­teu lá a fa­ca. 

  Tin­ha anoite­ci­do por com­ple­to. Não passá­va­mos ago­ra de vul­tos uns para os out­ros, que uma lua, num quar­to min­guante muito adi­anta­do, ain­da deix­ava ver. 

  Esse rabo de lua, cain­do já para poente, es­ta­va bem ao al­to, e, co­mo com «lua em pé, mar­in­heiro deita­do», tu­do in­di­ca­va que o bom tem­po se man­te­ria. 

  Até cer­ca das vinte e duas ho­ras e trin­ta, a situ­ação man­teve-​se: a lin­ha nem cor­reu nem foi meti­da den­tro, e a gasoli­na con­tin­uou ao nos­so la­do, o que sem­pre da­va cer­to con­for­to. Até a mar­cha da Baleia, sem­pre para noroeste, tam­bém se man­teve. Já há muito tín­hamos deix­ado de ver o úl­ti­mo clarão do farol do Cape­lo. 

  Não vou aqui de­scr­ev­er o que se pas­sou até àquela ho­ra, prin­ci­pal­mente com três dos el­emen­tos da trip­ulação, que tu­do procu­raram faz­er e diz­er para nos levar a aban­donar a Baleia. Aque­les home­ns vi­am e sen­ti­am a Baleia nos lu­gares mais in­críveis, chegan­do ao pon­to de verem a gasoli­na ser traça­da ao meio pela bo­ca dela... 

  En­tre­tan­to, começá­mos a no­tar que a gasoli­na se es­ta­va sem­pre a dis­tan­ciar de nós, para a nos­sa frente, chegan­do a dar al­gu­mas voltas para vir de no­vo pôr-​se a nos­so la­do. Foi en­tão que re­parei no nos­so an­da­men­to prati­ca­mente nu­lo. Para mel­hor me cer­ti­ficar, fui para a proa e de fac­to vi que não só não andá­va­mos, co­mo tam­bém a lin­ha es­ta­v