a a ficar caí­da pela proa abaixo e na­da es­ten­di­da para a frente, co­mo se­ria nat­ural se a Baleia es­tivesse em an­da­men­to. Tal co­mo as coisas se ap­re­sen­tavam, a Baleia teria deix­ado de puxar, já havia um bom bo­ca­do. 

  -Que ho­ras são? -per­gun­tei para trás. Não me recor­do ho­je de qual dos mar­in­heiros tin­ha reló­gio; sei que dum de­les a re­spos­ta veio: 

  -Fal­ta um quar­to para as onze. 

  De­bruça­do pela proa fo­ra, com os ol­hos pos­tos na lin­ha, procu­ra­va ver al­gum in­dí­cio de ser pux­ada. Mas na­da: nem luzeiro fazia. Ou­vin­do diz­er as ho­ras, que vin­ham con­fir­mar a min­ha sus­pei­ta, en­tão disse: 

  -A Baleia es­tá mor­ta!...

  -Ela ain­da há pouco es­ta­va ali a bu­far!...

  -Aqui­lo não era Baleia nen­hu­ma! -ri­postei ao mar­in­heiro que falara e que pouco antes gri­tara hor­ror­iza­do que via a Baleia per­to de nós.

  -José Maria, a Baleia es­tá mor­ta. Va­mos começar a me­ter a lin­ha den­tro. 

  No­vo alvoroço na trip­ulação que de maneira nen­hu­ma que­ria que nos aprox­imásse­mos da Baleia antes do aman­hecer. Fazen­do tal, se­ria perder seis a sete ho­ras de re­boque, o que muito nos re­tar­daria. 

  Voltei a in­si­stir ser de to­da a con­veniên­cia amar­rar­mos à Baleia o mais rápi­do pos­sív­el, de­vi­do à dis­tân­cia a que nos en­con­trá­va­mos da ter­ra. Não have­ria peri­go fazen­do a aprox­imação com to­do o cuida­do, sem­pre pron­tos a ciar para ré se a sen­tísse­mos. Eu tin­ha quase a certeza de que ela es­ta­va mor­ta, não só pe­lo tem­po pas­sa­do, mas tam­bém por não puxar. Em­bo­ra neste pon­to hou­vesse a con­sid­er­ar o que pres­en­ciáramos várias vezes du­rante o dia: ela com­ple­ta­mente para­da à nos­sa es­pera... 

  Foi feito silên­cio ab­so­lu­to du­rante um bom bo­ca­do. Na­da sen­ti­mos. Se a Baleia es­tivesse vi­va, de­via bu­far e nós ou­viríamos o ruí­do do bu­fo. 

  -Armem os re­mos três, qua­tro, cin­co e seis, os out­ros vão à lin­ha. 

  Em­bo­ra de má von­tade, a or­dem da­da pe­lo ofi­cial foi lenta­mente cumpri­da e ini­ciá­mos o me­ter da lin­ha den­tro, com to­das as caute­las que aque­la op­er­ação, nes­tas cir­cun­stân­cias, re­que­ria. Um dos cuida­dos a ter foi o maior silên­cio: ninguém falar­ia e procu­raria faz­er o menor ruí­do pos­sív­el. 

  O José Maria en­car­regou-​me de di­ri­gir aque­la op­er­ação de aprox­imação, procu­ran­do sen­tir qual­quer ruí­do, ou avis­tar, se pos­sív­el, al­gu­ma coisa. A lin­ha vin­ha den­tro qua­tro ou cin­co braças. Par­ava-​se e es­cu­ta­va-​se aten­ta­mente na di­recção da lin­ha, para, de­pois de se ter a certeza de na­da ou­vir, serem pux­adas mais al­gu­mas braças. 

  Muito lenta foi es­sa cautelosa manobra, mas as­sim teve de ser. Pas­sa­va da meia-​noite e ain­da tín­hamos fo­ra meia sel­ha de lin­ha. 

  Foi por es­ta al­tura que se começou a pas­sar qual­quer coisa de es­tran­ho comi­go, que não com­preen­dia, mas era ver­dade. O meu coração ba­tia com tal força que sen­tia ni­ti­da­mente as suas pan­cadas. Eu não trem­ia, mas, pela primeira vez, naque­le dia, e talvez das pou­cas da min­ha vi­da, es­ta­va com me­do. Era me­do, sim! Perdera to­da a con­fi­ança em mim! Até a certeza de a Baleia mor­rer ao fim de tan­tas ho­ras tam­bém de­sa­pare­cera e já não acred­ita­va que es­tivesse mor­ta. 

  Soube, no en­tan­to, guardar para mim es­sa in­certeza e esse me­do, e nem um mo­men­to pro­curei re­cuar per­ante a situ­ação. 

  A lin­ha não es­ta­va ago­ra caí­da pela proa abaixo: fazia um ân­gu­lo bem aber­to, não haven­do qual­quer in­di­cação de a Baleia faz­er movi­men­tos. Nem tão-​pouco se rola­va, o que é nat­ural nas ag­onias d