a morte. Es­tar com­ple­ta­mente para­da, não era muito de ad­mi­tir, vis­to não nos ter­mos aperce­bido de qual­quer ruí­do, que, à dis­tân­cia a que nos en­con­trá­va­mos, pela pou­ca lin­ha que fal­ta­va, não podíamos deixar de ou­vir. Era muito tem­po sem bu­far. Mor­ta era mais nat­ural. 

  Mas co­mo aceitar de ân­imo leve o que, de fac­to, se ap­re­sen­ta­va co­mo o mais nat­ural?! Tín­hamos as­sis­ti­do du­rante uma tarde in­teira aos movi­men­tos dessa Baleia, de­fend­en­do-​se e at­acan­do-​nos das maneiras mais in­críveis e por nós nun­ca pres­en­ci­adas. Tu­do se po­dia es­per­ar dela... 

  A Lua es­ta­va-​se a pôr, não a sep­aran­do da lin­ha do hor­izonte mais que uns dois pal­mos. Ol­han­do na sua di­recção, via-​se re­flec­tir no mar, salpi­ca­do por uma on­du­lação provo­ca­da pe­lo ven­to bo­nançoso que ago­ra so­pra­va, os seus ténues raios de luz. Lem­brei-​me que, con­seguin­do me­ter a baleia en­tre nós e a Lua, se­ria muito mais fá­cil al­gu­ma coisa con­seguir ver. Ex­pus es­ta min­ha ideia ao José Maria que lo­go au­tor­izou a faz­er a manobra. De ime­di­ato come­cei a ex­ecutá-​la, es­ten­den­do-​me pela proa fo­ra a ob­ser­var a lin­ha, que era o úni­co pon­to de refer­ên­cia a poder dar-​me a di­recção pos­sív­el em que a Baleia se en­con­traria. 

  O bote tin­ha de ser manobra­do de maneira que a lin­ha fi­cas­se ori­en­ta­da para a Lua. Foi man­dan­do re­mar umas vezes, out­ras me­tendo al­gu­mas braças de lin­ha den­tro, com o fim de an­ular o seio, que foi con­cluí­da mais es­ta manobra, em que a lin­ha fi­cou pela proa fo­ra na di­recção da Lua, e, de­cer­to, da Baleia. Mas, por muito que procurasse, na­da con­seguia ver, e não havia dúvi­das que a Baleia, vi­va ou mor­ta, es­ta­va ali, já bem per­to de nós, vis­to tam­bém não haver dúvi­das de es­tar­mos pre­sos a ela. 

  O silên­cio tin­ha deix­ado de ser o de­se­ja­do; o de­stram­bel­hamen­to de ner­vos era bem patente naque­les home­ns, e re­firo-​me ago­ra a to­dos, da popa à proa... 

  A to­do o cus­to o José Maria procu­ra­va man­ter a or­dem, prin­ci­pal­mente o silên­cio, o que não con­seguia, mes­mo com as suas ameaças con­stantes. Era enorme o seu es­forço para man­ter o bote com o es­par­rela na posição que eu ia man­dan­do, e is­to porque os re­madores, não obe­de­cen­do a qual­quer or­dem, só ciavam para ré, co­mo úni­ca maneira que vi­am de se porem o mais dis­tantes pos­sív­el... 

  Para evi­tar que a lin­ha voltasse a cor­rer, per­ante o im­pul­so da­do aos re­mos, trin­ca­va-​a con­tra o leito, sem­pre aux­il­ia­do pe­lo homem do baó, e só quan­do se con­seguia al­gu­ma cal­ma naque­les home­ns metíamos umas braças den­tro. Mas lo­go um via ou sen­tia a Baleia, e os re­mos en­travam na água com to­da a en­er­gia a cri­ar para ré... A lin­ha era no­va­mente trin­ca­da e o bote, em­bo­ra força­do pe­los qua­tro re­mos, não se deslo­ca­va, a não ser o pouco que en­te­sa­va o seio da lin­ha. 

  Chegá­mos, fi­nal­mente, às úl­ti­mas vinte braças, ou se­ja, à lin­ha da proa. Sabia-​o porque acabara de no­tar a sua flex­ibil­idade, pe­lo fac­to de ser mais us­ada do que a restante. 

  O meu coração, se já muito ba­tia, ago­ra ba­tia muito mais…Da­va-​me a im­pressão de saltar fo­ra do lu­gar... e onde di­abo es­ta­va meti­da aque­la Baleia que não se con­seguia ver, à pou­ca dis­tân­cia que nos sep­ar­ava?!...

  Se tivesse vi­da, já nos teria at­aca­do. No en­tan­to, po­dia es­tar à tona da água, aguardan­do a nos­sa aprox­imação, para nos de­stroçar de uma só vez. Tu­do is­to me pas­sa­va pela cabeça, en­quan­to procu­ra­va vis­lum­brar aqui­lo que de maneira nen­hu­ma se paten­tea­va..