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  Não tín­hamos out­ra coisa a faz­er senão me­ter mais al­gu­mas braças de lin­ha den­tro, ape­sar de to­dos os riscos. 

  A Lua es­ta­va quase a pôr-​se. Era de tu­do ten­tar antes que is­so acon­te­cesse. Ela já bei­ja­va o mar com a pon­ta in­fe­ri­or do seu min­guante, quan­do me pare­ceu ver al­go a re­flec­tir so­bre o mar na nos­sa proa, que mais ain­da me ame­dron­tou. Foi nesse pre­ciso mo­men­to que um gri­to me ia a sair, e o con­segui aba­far! Esse gri­to se­ria uma or­dem?, uma in­di­cação?, se­ria de es­pan­to ou de ter­ror?!... Não sei. Sei que sus­tive a res­pi­ração, pro­curei con­fir­mar se era ou não aqui­lo que me pare­cera ter vis­to. Ob­ser­vo de no­vo... Não havia dúvi­das: es­ta­va ali o cor­po da Baleia a ser bati­do pe­los úl­ti­mos raios daque­la rés­tia de lu­ar... 

  Na­da di­go, nem mes­mo sei o que de­vo diz­er, ou se con­seguiria falar naque­le mo­men­to. Da­va-​me a im­pressão níti­da de a Baleia es­tar vi­va, atrav­es­sa­da na nos­sa proa. 

  Pro­curei acal­mar-​me o mais pos­sív­el, fazen­do ver a mim próprio que o úni­co raciocínio lógi­co im­pli­ca­va que a Baleia es­tivesse mor­ta. Se as­sim não fos­se, eu tin­ha es­ta­do a en­ga­nar aque­les com­pan­heiros, du­rante tan­tas ho­ras. 

  O ver mex­er o cor­po da Baleia de­via-​se ao fac­to de ain­da es­tar quente, dan­do-​se ao jeito da on­du­lação. Foi as­sim pen­san­do que, res­olu­to, me voltei com o seio da lin­ha na mão, o pas­sei em vol­ta do ban­co, aux­il­ia­do pe­lo homem do baó e, em voz, ago­ra firme, ex­clamei: 

  -A Baleia es­tá ali, e es­tá mor­ta!...

  Um raio não teria pro­duzi­do igual efeito! Er­am autên­ti­cos loucos, dizen­do as coisas mais dis­paratadas, en­quan­to, do­bra­dos em cima dos re­mos, fazi­am es­forços tremen­dos para faz­er o bote an­dar. Eu tin­ha-​me pre­venido dan­do a vol­ta, com o seio, ao ban­co, aguen­tan­do facil­mente o es­forço só com uma mão. Tam­bém procu­ra­va, lev­an­tan­do a voz o mais al­to pos­sív­el, faz­er-​lh­es ver que já não havia peri­go. O José Maria, tam­bém nis­so aux­il­ia­va, mas lev­ou tem­po a con­seguir-​se a cal­ma... a Lua tin­ha-​se pos­to e a noite ficara de to­do es­cu­ra. 

  O José Maria man­dou me­ter den­tro dois re­mos, or­dem que foi ex­ecu­ta­da com cer­ta re­lutân­cia; fi­cavam ar­ma­dos o três e o qua­tro, ape­nas os su­fi­cientes para manobrar o bote. 

  Voltei-​me para a frente e começá­mos a puxar na lin­ha, ago­ra com out­ra de­ter­mi­nação. Mas a in­certeza veio de no­vo: eu tin­ha vis­to a Baleia, no en­tan­to, não po­dia garan­tir que es­tivesse mor­ta. Tin­ha, sim, con­ven­ci­do a mim e aos out­ros do que se­ria de fac­to lógi­co, mas se­ria?! E sou eu ago­ra a aguen­tar a lin­ha para não vir den­tro, procu­ran­do mais ou­vir do que ver al­gum sinal de vi­da ou de morte daque­le an­imal. 

  Foi en­tão que sen­ti, pela primeira vez, o mar a que­brar em cima de al­go, não po­den­do ser out­ra coisa senão o cor­po da Baleia. 

  Na­da disse. Pe­di a lanter­na que es­ta­va na popa, amar­rei-​a na pon­ta do croque, e aguentei-​o no ar pela proa fo­ra. Man­dei o homem a meu la­do me­ter mais lin­ha den­tro. De­pres­sa mais al­guém sen­tiu e re­con­heceu o ruí­do. De no­vo se es­pal­ha o alvoroço, só que ago­ra por mo­ti­vo difer­ente... Acaba­va-​se de ver o cor­po da Baleia es­ten­di­do por cima do mar, a menos de dez met­ros de nós. Des­ta vez não havia dúvi­das: es­ta­va mor­ta! Via-​se a asel­ha no ar, sinal que não mere­cia qual­quer dúvi­da, porque a Baleia, quan­do mor­ta, fi­ca de la­do. 

  -Es­tá mor­ta!... es­tá mor­tal. .. es­tá ali com a asel­ha no ar! -diz o homem que a meu la­do aguen­ta­va a lin­ha. 

